Entrevista
Angola

Moses Caiaia: “Nós temos que trabalhar muito na mentalidade do nosso país e fazê-lo nascer de novo”

Moses Caiaia: “Nós temos que trabalhar muito na mentalidade do nosso país e fazê-lo nascer de novo”
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 Moses Garoeb Catiavala Caiaia é um jovem angolano, nascido em Luanda a 9 de Julho de 1989, Jurista de profissão, tendo-se licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Angola. Trabalhou durante quase três anos (2013-2015) como Técnico do Gabinete Jurídico da extinta ANIP (Agência Nacional para o Investimento Privado), participou, também como técnico, na criação da Unidade Técnica de Apoio ao Investimento Privado do Ministério das Pescas (2016) e actualmente exerce a sua actividade profissional na APIEX (Agência de Promoção de Investimento e Exportações) de Angola, e é também fundador, Director-Geral e formador na empresa Ponto de Vista, vocacionada à organização de acções de formação, lançamento de obras literárias e actividades afins, que coordenou o 1º Congresso Angolano de Direito Empresarial, realizado em Outubro do ano passado, e coordena igualmente o 1º Congresso Angolano de Propriedade Industrial, que acontecerá nos próximos dias 26 e 27 deste mês. Em entrevista ao ONgoma News, Moses Caiaia conta o seu percurso enquanto formando nas áreas em que actua como empresário, a apreciação que faz sobre o estado académico, social e económico do país, bem como a ambição em ser um dos actores da mudança de mentalidade da sociedade.

Sempre pretendeu formar-se em Direito?

Bem, as nossas vidas são influenciadas por várias situações e, no caso, a minha formação média não foi em Direito, mas sim em Contabilidade e Gestão, no Instituo Médio de Economia de Luanda (IMEL), porém mais tarde percebi que era importante eu enveredar para aquilo a que achava ter aptidões. Algumas pessoas próximas, familiares, amigos, enfim, também aconselharam, recomendaram, de modo que entendi que a dada altura deveria deixar de estudar Contabilidade e Gestão, ou seja, não dar continuidade a nível do ensino superior, e fiz o curso de Direito pela Universidade Católica de Angola.

... o canudo tem que conferir o conhecimento que adquirimos, porque ter só o canudo por ter é complicado.

Fez o ensino médio de Contabilidade e Gestão, depois frequentou a Licenciatura em Direito, e hoje desenvolve muitas acções. Pode-se dizer que a pessoa que é hoje foi de certa forma influenciada pelos sonhos de outrora ou é tudo fruto das mutações da vida?

Eu não tenho só Licenciatura em Direito, estou a terminar o Mestrado em especialização de Direito Comercial pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e tenho pós-graduações (Pós-Graduado em Corporate Finance e em Corporate Governance). Sinto que havia necessidade de fazer uma convergência a nível daquilo que é a formação. Eu, particularmente, discordo, embora admita e não me repugne por causa disso, que determinadas pessoas façam formação, a nível da graduação ou pós-graduação, diferente daquilo que fizeram no ensino médio. É que as condições no nosso país são adversas, mas sempre entendo e entendi que quando as pessoas têm a possibilidade de reunir um maior número de informação dos conhecimentos técnicos e científicos sobre as áreas em relação às quais trabalham, é fundamental, e aquilo que tenho tentado fazer é, no fundo, aproveitar a minha formação superior para poder dar sentido a princípios e questões que eu entendo e que são importantes para a melhoria da vida da sociedade, no caso concreto, na vida das empresas, porque são essas que geram empregos, são essas que acabam por ser motores da economia. E o que tento fazer, então, é estudar para que determinados objectivos, pontos de vista que tenho propugnado em várias séries, nos grupos em que me enquadro, possam ser acolhidos. De modo que falar em sonhos talvez não seja o mais rigoroso, mas sim objectivos, metas, alvos a atingir, a alcançar, e talvez assim seja o mais acertado.

Mas defende que é a formação em Direito necessária para as iniciativas que dirige ou qualquer outra pessoa com vontade poderia fazer o mesmo?

Nós estamos num âmbito de actividade de investigação científica, que exige um estudo constante, e uma pessoa que quer ser um bom académico, realmente quero ser, e estou a melhorar nesse sentido, tem que obviamente ter gosto pelo estudo, mas um gosto ilimitado, ou seja, o gosto não pode acabar, de modo que o principal propósito, que está subjacente a essa necessidade de cada vez mais ter formação e uma formação sólida, não se perca. A actividade de investigação científica ainda não é muito valorizada, basta olhar para o facto de muitos dos docentes, e não só, terem obras e muitos trabalhos que podem ser objecto de publicação, livros, enfim, para que sejam objecto de estudo, de apreciação de especialistas de várias áreas e até estudantes, mas não há essa aposta, esse incentivo, de modo que entendi que o caminho deveria ser este: estudar e a partir desta formação, através da minha participação na academia, dar o contributo para melhorar aquilo tudo que deve ser melhorado.

E na sua opinião, e como académico que é, quais são os riscos que esse deficit nas academias constituem?

O deficit é grande. A academia é o suporte de um país, do ponto de vista de massa crítica, mas estamos a falar de academia com qualidade, não estamos a falar das escolas que ficam no bairro, institutos superiores onde o mais importante é a propina, quem dá aulas são licenciados. Estou a falar de uma academia séria, comprometida com o ensino com rigor e, quando falo disso, muitas pessoas dizem que eu tive a oportunidade de ir para fora. Mas não: tive a oportunidade de escolher entre estudar na UCAN e em qualquer outro sítio, e escolhi o mais difícil. No meu ponto de vista, obviamente existe a Universidade Agostinho Neto e eventualmente alguns vão dizer que existem outras, mas nós estamos a ser consumidos por instituições duvidosas no nosso país e isso porque quem pretende fazer o ensino superior não está preocupado com a qualidade da formação, está preocupado com o ter o canudo, só que as pessoas se esquecem de que sobretudo jovens acabam por ser a maior parte nesta acção, que acabam por ter desinteresse pelo ensino de qualidade, esquecem-se de que amanhã, após a licenciatura, no caso, terão a necessidade de porem em prática os conhecimentos, por isso é muito importante fazer um investimento de qualidade, é muito importante haver, da parte de quem decide escolher uma licenciatura, uma aposta séria naquilo que é o rigor, o estudo, a aplicação para que efectivamente os conhecimentos que foram aprendidos e apreendidos ao longo da licenciatura e no âmbito da actividade investigativa que a universidade queira cultivar, porque algumas ainda o fazem, a maior parte das universidades possa contribuir para o desenvolvimento do país. Dom Damião Franklin, que Deus o tenha, foi reitor da UCAN, foi meu professor de Direito Eclesiástico, dizia sempre que os “medíocres não faziam a história”, portanto deve ser uma lição que nos deixa, parte do seu rico legado. É essa frase que tenho sempre dito aos meus alunos, na UCAN ou noutros sítios onde apareço como formador, que a mediocridade não coloca ninguém nos anais da história, os que fizeram diferença no mundo da academia, enfim, são pessoas que foram extraordinárias. Aqueles que não foram extraordinários estão por aí, coitados, muitos deles engenheiros, estão a arranjar telefones nos Congolenses, São Paulo, porque as pessoas não usaram o meio, e eu não estou a dizer que as pessoas que estão nesses sítios são analfabetas, mas o que eu quero dizer é que se nós quisermos ter um bom caminho e seguir, um caminho diferente do da maioria, nós temos que nos distinguir, e essa distinção passa por termos uma formação sólida, com qualidade, e isto depende de ter que passar por boas instituições de ensino superior e não nos preocuparmos só com o canudo. Quer dizer, o canudo tem que conferir o conhecimento que adquirimos, porque ter só o canudo por ter é complicado. Eu já dei aulas (2012/2013) numa universidade, no quinto ano, em que as pessoas nem sabiam escrever em condições. Portanto, isto é para ver que esse ensino daqui espanta-me, todos os dias. Agora que os colégios viraram creche, daqui a pouco vamos assustar que casas vão ficar institutos superiores, porque isso aqui é uma proliferação parece que de igreja e ninguém acompanha.

Na sua óptica, é a formação superior o ponto de partida para se ter emprego ou o canudo não define a preparação do indivíduo para o mercado de trabalho?

Primeiro, sou contra essa ideia de estudar para ter emprego. Nem sei o que é emprego. O nosso ensino também deturpa a vida pessoas. O ensino aqui em Angola, em vez de ensinar as pessoas a empreender, ensina as pessoas a trabalhar para os outros. Quando uma pessoa quer empreender aqui é mal vista, porque “não quer estudar, só quer fazer negócios, estuda!” Que ideia é essa?! Os países desenvolvidos não se desenvolveram com essa perspectiva ou filosofia de vida. Não estou a dizer que as pessoas têm que abandonar a academia, mas o ensino já não tem qualidade. É só olhar para os jovens que concebem as redes sociais: Facebook, Instagram, Twitter, jovens cujas escolas, só mesmo no ensino de base, têm uma preparação  adequada. O Estado tem custos para um ensino superior de qualidade, mas atenção, não é como aqui, onde estudar é um sacrifício. Nós, praticamente, passamos pelo mesmo que os zungueiros.  Somos estudantes, mas andamos debaixo do sol, uns já com a sombrinha, passam fome, vão para a escola e não há merenda, por isso que eu entendo  que o nosso ensino deveria  ser revisto, pois não deveria treinar as pessoas no sentido de elas trabalharem para outros. Isto não é estudar, isso não tem qualidade, o ensino tinha que ter sobretudo na perspectiva do ensino superior não dever ensinar aquilo que as pessoas devem fazer, mas ensinar as pessoas a pensar. Eu  tenho dito aos meus alunos que eu não avalio se a resposta está certa ou errada, eu avalio a forma de pensar do aluno, a massa crítica do aluno, porque esse indivíduo quer saber se amanhã tem condições de argumentar no curso de Direito,  ou contra-argumentar. Não o vou avaliar se está certo ou se está errado, até porque o curso de Direito carrega algum subjectivismo, de modo que o nosso ensino tinha que mudar logo. Por isso é que muitos estão a terminar e ir para o Estado, e ficam tristes quando congelam o ingresso na função pública. Quer dizer, entrou para a universidade com a ideia de  ir no Estado e ganhar 30/20 mil kz e depois ficar corrupto. Essa situação tem que acabar, nós temos que ter um ensino que promove empreendedorismo, que promove massa crítica, que promove emprego, os jovens que estão a sair da universidade têm que criar, organizar  incubadoras, têm que estar a organizar centros de investigação científica, saber, ter conhecimento, não esse ensino que tem pessoas que não sabem escrever mas são licenciadas, um aluno que faz Direito não gosta de falar, mesmo sendo o seu instrumento a oratória. O que vão fazer?  Acontece em engenharia: os prédios estão tortos porque os engenheiros não gostam de matemática, não pode. Esse ensino tem que ser revisto em tudo, educação financeira tem que se colocar nas escolas, as nossas crianças têm que aprender porque aqui gasta-se muito dinheiro em vão. É preciso rever isso, por isso é que vemos Bill Gates a usar as mesmas calças na mesma semana, pensando que é burro, quando tem mais dinheiro do que nós que estamos cheios de fato, mas dormimos na esteira.

Mas a que se deve essa situação?

Para dizer que tem a ver com a mentalidade da sociedade. Eles evoluíram nesse ponto de vista: têm educação financeira, usam o dinheiro para aquilo que é realmente importante para empreender, e não como nós usamos o dinheiro – para comprar carro, para mostrar que nos vestimos bem, o primeiro salário é para gastar em vão, molhar o bico. Mas molhar o quê?  Empreenda! Use aquele dinheiro para gerar empreendimento. O nosso ensino tem que ter esse propósito, mas aqui, quando a pessoa fica a empreender é enfeitiçada… É complicado. De preferência a pessoa continuar pobre, e também rico não pode ir a muitos sítios. Noutros países não é assim, mas isso não quer dizer que as pessoas tenham que deixar de empreender, as pessoas têm que pensar que a sociedade tem  que evoluir, e o ensino tem que mudar, nem todos têm que ser doutores, e não estou a dizer isso  porque eu estudei. Eu tenho dito sempre que a estatura de procurador ou advogado é quase emprego: Você termina e não tem emprego, vai à ordem e vira advogado. Isto é brincar com a actividade de advogado. Temos indivíduos coitados, estão a passar mal na profissão, um advogado não tem dignidade, é como o caso dos professores: hoje ser professor em Angola do ensino de base é emprego, mas isso é vocação, não pode ser emprego, por isso é que os nossos jovens estão a estudar mal. Como é que um pai escreve melhor que o professor do filho?  Não deveria ser essa regra, e claro que o pai do filho também  tem que saber, mas o professor tinha que ser referência para a criança e esse é o problema do nosso ensino. Se nós começarmos a expulsar toda gente que tem que estudar, toda gente que tem que fazer Licenciatura, o resultado é desastroso. Estávamos com a ideia de que primeiro tínhamos que nos preocupar com a quantidade, agora é que queremos olhar para a qualidade, mas não é assim. Essas pessoas que estão a ter estatuto de licenciados, de técnicos superiores, nessas universidades que estão a ser criadas, quando quiserem ir para fora do país, estudar numa boa universidade, não entram, e também nunca estão preocupadas em estudar numa boa universidade lá fora, porque sabe mesmo que não vai chegar a uma instituição, uma universidade de Haward ou Cambridge.

De que forma se pode alterar esse quadro?

... estar numa universidade ou sair dela não é garantia de sucesso em lado nenhum nas nossas vidas. Quem vai às praças consegue ver tantos doutores que perderam 5 ou 4 anos a pagar propinas, estão aí a fazer o quê? Então, uma pessoa que termina Licenciatura em Direito vai ser caixa num banco?

Temos que repensar numa reforma de currículos, mudar a filosofia de estudo, nós aqui, sob influência do ensino português, é muita teoria, muitos livros, fascículos, por isso temos muitos juristas que só falam muito na televisão, muitos verbos, querem ter tudo, mas pronto,  deveríamos  ter uma visão de âmbito saxónico, muito para a dinâmica, estudar  para aplicar o conhecimento, não é estudar só  para dizer “Eu estudei”, “Eu sou doutor”  e na prática não sabe nada. Isso exige que os estudantes nos últimos anos da universidade tenham já estágios por meio de protocolos das instituições de ensino  com as empresas e exige reforma do conteúdo programado de algumas disciplinas dos vários cursos, exige reforma curricular, exige valorização dos professores. Portanto, estar numa universidade ou sair dela não é garantia de sucesso em lado nenhum nas nossas vidas. Quem vai às praças consegue ver tantos doutores que perderam 5 ou 4 anos a pagar propinas, estão aí a fazer o quê? Então, uma pessoa que termina Licenciatura em Direito vai ser caixa num banco? Com tantas saídas profissionais  que existem na advocacia, pode ser procurador, advogado, consultor, juíz, ele próprio nem valoriza a sua formação.

Estive com um jovem há tempos e por acaso é um jovem muito inteligente, caixa do banco. Você que tinha que fazer revisão dos livros, das obras, publicações, contar dinheiro? Repito, é preciso mudarmos o paradigma de ensino para aquilo que é o correcto. Eu não discuto sobre emprego porque para mim o nosso ensino está mal e a única solução talvez seja ensinar o meu filho a ter dinheiro a partir já de casa, em vez de estar numa escola em que o professor não aparece quando chove. Por outro lado, nós nos seguimos muito. Agora também está na moda todos fazerem Direito, Gestão, como no caso da Sonangol, quando disseram que estava a falir, agora estão na AGT, quando descobriram que já não estava a dar, rumo ao BNA. As pessoas têm que aprender a investigar, a trabalhar numa actividade concreta para terem domínio, e isso não se faz só com emprego, isso faz-se com foco, educação e atenção, senão vamos deturpar a nossa sociedade que já está uma confusão.

Durante os anos 2013 e 2014, foi docente (assistente estagiário) das cadeiras de Direito Comercial, Direito das Sociedades Comerciais e Direitos Reais, na Universidade Católica de Angola. O que é que pôde cultivar durante esse percurso?

Cultivei muita coisa. Foi importante e, logo que terminei a Licenciatura em 2012, fui logo convidado, graças a Deus, para dar aulas como assistente estagiário. Como eu não concordo que o licenciado deve dar aulas sempre, eu parei de dar aulas e eu próprio fiz a minha carta e fui estudar para fazer o meu mestrado. Eu não falo só, aquilo que eu entendo, que eu defendo, eu também procuro aplicar. Agora vou reentrar, em princípio vou voltar a dar aulas na UMA, talvez  o próximo ano reintegre na UCAN com estatuto de mestre e já com a minha dissertação defendida, mas isso para dizer que foi importante porque o Mestrado, do meu ponto de vista, não se faz sem ter experiência de trabalho. Para poder fazer esse caminho, tinha que necessariamente acumular experiência na academia e perceber se realmente eu quis dar aula, e é o que aconteceu durante esses dois  anos. Fui assistente  para dar e aprender porque eu tinha um regente, o Dr. Luís Nunes,  e isso foi importante porque determinou o meu  acesso à Universidade de Lisboa, e com a pouca experiência que eu já tinha, pouca mas tinha como assistente, em dois anos aprendi muito, de modo que hoje  eu vejo o ensino de uma forma muito crítica. vejo porque estudei fora e também tenho essa percepção de que o ensino daqui não tem qualidade, nem as universidades que nós dissemos ser as boas ou as melhores o são. Eu próprio estive nessa condição e contrariei (contrario) várias vezes as universidades, porque não podem ter licenciados a dar aulas há mais de 3 anos, sendo que os licenciados não têm conhecimentos aprofundados para ser professore dos outros que estão a fazer licenciatura com eles, e isto estraga o ensino.

Não podemos estar a brincar. Agora, vamos aos bairros, eu tenho amigos que tiravam zero, mas são professores. Estão a ensinar o quê aos outros? Eu não entendo como contratam essas pessoas, uma pessoa que só tira 10, 10 e 10, por isso é que a universidade de referência que temos é a UCAN. Na UAN, a média para se dar aulas é acima de 14, e mesmo lá fora, para se fazer um Mestrado a média tem que estar acima dos 14 valores, e porque é um padrão razoável.

Bem, à volta daquilo que é questão colocada, actualmente, fruto do que absorvi, estou a trazer algumas formações para cá, eu e a minha equipa. No âmbito da especialização, promovemos no ano passado o 1.º Congresso Anual Angolano Empresarial, em que falámos sobre “A Reforma de Processo de Constituição de Empresas de Angola”, agora estamos a trabalhar numa matéria nova que é a  Propriedade Industrial, uma área de Direito muito interessante que estuda as marcas, as patentes, os modelos e desenhos industriais, estuda os logótipos, as denominações, enfim, estamos aqui a fazer um esforço no sentido de levar as pessoas a trabalharem no âmbito da especialização. Os congressos são de especialidade, podem participar todas as pessoas interessadas, mas obviamente o público-alvo são aquelas pessoas que lidam ou que pretendem lidar directamente com essas matérias. Temos outros congressos, mas para já o grande congresso que vamos ter conta com oradores estrangeiros, que acontece nos próximos dias  26 e 27 de Abril.

Essas cadeiras, das quais foi assistente estagiário, foram as que lhe chamaram atenção?

São as mais difíceis. Para já, quando não queremos ser iguais aos outros, não podemos fazer as coisas que os outros fazem. Primeiro porque fui um excelente aluno nessas cadeiras, segundo porque entendi que são cadeiras nas quais os outros teriam algumas dificuldades em trabalhar. Eu não podia fazer Direito da Família, Direito de Trabalho, sem o prejuízo do respeito que tem, e outras cadeiras que toda gente faz.

Há muita gente indicada para estas cadeiras e que tem feito um grande trabalho, mas escolhi as cadeiras que muita gente não ia fazer para eu ter exclusividade. Não tenho que dividir os clientes com quase ninguém, e também, se estiver a dividir, é com pessoas grandes, mais velhos que já estão há muito tempo nisso. Escolhi por isso, escolhi uma opção na universidade, dediquei-me, disse que vou fazer essas áreas, jurídicas empresariais, de Direito, tenho formação em Contabilidade e Gestão, tenho sensibilidade para matérias jurídicas, empresariais e até económicas, e no fim eu colho isso.

Dei continuidade porque eu tinha foco, sabia o que quis, desde o ensino médio foi um processo de consolidação de conhecimento que ainda não chegou ao fim, vamos ver se chega agora com o doutoramento, porque eu penso em começar a fazer dentro de 1 ou dois anos, mas a ideia foi exactamente essa.

Esteve como Técnico de Gabinete Jurídico da ANIP (Agência Nacional para o Investimento Privado) e trabalhou também na UTAIP (Unidade Técnica de Apoio e Investimento Privado) das Pescas, isso em 2016. Como é que avalia a presença dessas instituições no país?

Nós aqui, em Angola, temos muitos problemas. Agora está aí a APIEX (Agência de Promoção de Investimentos e Exportações). Tivemos a ANIP a funcionar bem, do meu ponto de vista, com alguns problemas como qualquer instituição pública tem, mas depois surgiu uma reforma em 2015 que veio dar lugar à UTAIP, no fundo do Ministério das Pescas. É um serviço que resulta de uma decisão do Governo para a extinção da ANIP. Surgiu um novo modelo ou quadro operacional com investimento privado. Nós temos que olhar para a seriedade das nossas instituições e permitir que elas sejam maduras, nós não podemos extinguir e depois de um ano surgir outra, como está a acontecer, não há estabilidade e em matérias sensíveis como essa no caso de investimento privado as empresas devem ser sérias, como a mulher de César.

É necessário que estas instituições tenham maturidade, tempo de existência, em vez de estarem a extinguir umas e criar outras. E quanto ao sistema financeiro, na banca, não deve haver sempre substituições, temos que dar estabilidade a esse tipo de instituições, essas que reflectem a imagem do nosso país no estrangeiro, e eu penso que a nível do quadro operacional tem que haver alguma estabilidade.

Além disso, o Governo decidiu fazer uma nova instituição, extinguiu as UTAIPs, criou outras. É preciso vermos bem, e  isso deve ser complementado com medidas e lugares estáveis, pois os institutos privados são uma área transversal, possuem matérias de vários domínios: fiscal, cambial, desde que gere alguma estabilidade, porque se nós fizermos isso, só aí se poderá falar de uma avaliação positiva das instituições, porque do contrário será muito difícil falar de instituições fortes.

E qual deverá ser o pendor das mesmas nesta altura da crise económica?

Não há crise. A crise é uma coisa que os que têm dinheiro usam como justificação para o que está a acontecer com os pobres, porque continuam a comer caviar, andar de carro com ar condicionado. Se der por conta, só há baixa qualidade para ti, cujo arroz, antes comprado a 200, hoje custa 500kzs. Logo, o conceito de crise não existe, existe um conceito de oportunidade, isso é que é a questão. Quer dizer, muitos senhores abandonaram Angola e há oportunidade, claro que é preciso justificar os roubos, agora não há mais dinheiro e a conversa é a crise. Como é que normalmente as pessoas justificam separação na relação? “As coisas já não estão a correr muito bem entre nós, e já há algum tempo” e aproveita-se cada um seguir o seu caminho.

Eu próprio, nesse contexto de crise, só para dar uma ideia, quando o câmbio chega pela primeira vez nos últimos anos a 50 mil kwanzas, consegui ir fazer o meu Mestrado em Lisboa. Foi oportunidade. Agora, recebi um convite para gerir a minha empresa por meio de formações que temos dado. Sendo assim, a crise é conversa dos preguiçosos, conversa na qual não entro, porque acho que as pessoas têm que trabalhar, têm que olhar para as oportunidades, há momento agora de muitas oportunidades, porque aqueles que só estavam preocupados com o dinheiro do país foram-se e ficamos nós, que devemos ter visão de águia para enxergar as oportunidades que temos e aproveitar. Porque se o preço do petróleo descer, aqueles vão voltar e nós que estamos em crise vamos perder tempo.

É como a história da Flor de Raiz, esquece isso, assunto para distrair as pessoas e elas continuarem pobres.

Entretanto, acredita que temos sabido aproveitar estas oportunidades?

Claro que não temos sabido aproveitar. A mim espanta como é que um jovem nesse contexto de crise em que se deve empreender não estuda porque não tem dinheiro para pagar propina. Eu não posso acreditar que um jurista é pobre, vira “mixeiro”, fica à porta de instituições para tratar documentos, não posso. Ninguém pode me dizer essas coisas, repugno a magnitude de determinadas coisas, como uma pessoa que é licenciada e não tem emprego. Como? Você estudou e te ensinaram algo na escola, implementa o teu projecto. As pessoas continuam neste nível de desemprego porque estão tapadas. Eu também tenho problemas, dois escritórios para pagar renda, contratar pessoal, os custos não estão muito baratos, muitos clientes foram-se embora, mas é na crise que se vê se as pessoas são fortes ou fracas, ou na suposta crise onde se vê quem tem espírito de empreendedor. Porque enquanto alguns estão a reduzir, nós estamos a aumentar a nossa capacidade de negócio.

A minha empresa, quando começou a surgir a suposta crise, trabalhou mais em consultoria, nós olhamos mais para os outros segmentos. A empresa patrocinou-me o Mestrado, a empresa patrocinou-me a pós-graduação e aquilo que conseguimos em consultoria vamos ganhando com formação, portanto nós jogamos com a crise como oportunidade e vamos ganhando dinheiro com isso.

Várias vezes acontece, no Hotel Skyna, de eu ir dar formações e as pessoas pagarem para assistir. A crise é uma oportunidade. Quando há crise, as pessoas querem ter mais conhecimentos. Agora, quem não estudou, a culpa é sua se não consegue dar formação. Quem não estudou, o problema não é meu, as pessoas deviam saber que é exactamente por isso que o ensino de qualidade tem valor, porque quando surgem essas situações, uma pessoa que tem uma formação sólida e boa tem sempre alternativas. Eu não perco muito tempo com essas conversas de crise, porque quando falam se Isabel é que roubou é apenas para desviar as pessoas do seu foco. Ela tem banco, supermercado, e tu nem roulotte, nem gelo na tua casa vendes, não tens energia, tantos mosquitos...

Como e quando é que entra para a APIEX?

Entro para a APIEX no processo de reestruturação da ANIP. Com a extinção da ANIP, o pessoal no activo e passivo, no caso, os meios quer humanos, financeiros, quer materiais, transita automaticamente para a APIEX, e eu entro exactamente por força deste processo de extinção e consequentemente de criação dessa manifestação da empresa.

Defende que deva haver uma aposta um pouco mais rigorosa no investimento privado?

Um pouco? Tem de haver. Este país está a precisar de dinheiro e este dinheiro nos países como o nosso, em desenvolvimento, só se consegue de uma forma. Estou a falar de dinheiro de verdade, não esse dinheiro que tem sempre conexão com o Investimento Direito Estrangeiro (IDE). Para tal, tem que se atrair investimento, e atrair investimento implica um conjunto de reformas. Angola tem que melhorar o seu processamento de business, tem que melhorar as condições de fazer negócio, temos que melhorar, não podemos estar a aprovar e extinguir leis. O problema de Angola é que as coisas não mudam. Ninguém precisa de um novo código, a lei não resolve nada, a lei pode ser um mecanismo para resolver, mas é preciso que haja controlo, fiscalização, responsabilização, quem não cumprir vai sofrer. Nós temos que trabalhar muito na mentalidade do nosso país e fazê-lo nascer de novo.

Como é que surge a Ponto de Vista e qual é o seu ramo de actuação?

Paulo disse uma vez aos Coríntios: “combati o bom combate”. Eu espero poder daqui a algum tempo dizer que ajudei a sociedade a ter pessoas melhores, nesse caso, jovens que estão a trabalhar comigo no projecto empresarial. 

A empresa Ponto de Vista surge no âmbito de uma visão reformista. Eu entendo que aqui em Angola fala-se muito de educação económica, mas para mim o mais importante não é a educação económica e sim a diversificação do conhecimento. Pode ter terreno, ser agricultor, mas se você não tiver conhecimento que lhe permite desenvolver o seu terreno, não tem nada, por isso é que nós dizemos que informação é poder. Eu posso não ter dinheiro, mas se eu tiver informação tenho mais dinheiro que tu. É poder. Se nós começarmos a diversificar os conhecimentos, não vamos olhar para a actividade de administração económica, olhar para os terrenos, vamos melhorar as nossas escolas, a formação dos professores tem que ter mais qualidade, os nossos alunos têm que ter em todas as escolas uma biblioteca. Se se começa a fazer isso, significa que se está a treinar o homem para que amanhã possa ter capacidade de desenvolver as potencialidades que não são os petróleos e a partir daí dar princípios da economia. Nós estamos a ir por um caminho errado. Como é que se vai diversificar a economia com essa proliferação de que as pessoas não sabem o que estão a fazer na universidade? Porque são essas pessoas que amanhã vão para as empresas que lhes supostamente estão a dar dinheiro para diversificar a economia. Se o indivíduo não tiver capacidade orçamental para diversificar, não vai fazer nada, e não se diversifica a economia assim.

Os outros países evoluíram porque a mentalidade das pessoas mudou, e, quando a consciência muda, as pessoas não gastam dinheiro à toa, o deputado não precisa de ter Lexus, mesmo de bicicleta pode-se ir à Assembleia Nacional. Isto é diversificar o conhecimento, não há outro ponto que seja importante nessas reformas ao conhecimento e eu, quando olho para a sociedade, a minha forma de contribuir para ela é criar o projecto de formações de excelência e rigor, foco empresário, gestores, administradores, juristas, dentre outros, porque aqui as pessoas não têm cultura empresarial. “Para ser empresário tem que ter contrato com o Estado”. É assim mesmo? Este é um oportunista, porque empresário não é assim… É alguém que consegue montar um negócio. Claro que o apoio do Estado é importante, um eventual financiamento, mas não pode determinar o teu negócio. Se o Estado nunca der, nunca vais ser empresário? “Quando cair um Projovem, vou lá com um fato e gravata e sou empresário”. Não pode, e entretanto nós criamos o projecto para formar mentalidade aos empresários, empreendedores conduzir a sua actividade de gestão, que tem de ser rigorosa, com regras, diligências e princípios.

Temos dado muitas formações, congressos, isso tem muitos prejuízos, nós não achamos muito dinheiro, mas é o saber. O meu filho amanhã tem que saber que o pai fez essa sociedade estar corrigida ou lutou pelo menos para isso. Não se trata de um trabalho que a minha empresa deve sempre fazer, há instituições a quem nós pedimos para fazer o curso, mas não respondem. Isso é negócio, até posso comparar com os “mamadus” – a diferença é que vão lá fazer compra do produto diário, porque como é que uma instituição não aceita inscrever-se para um congresso? Por isso é que as instituições aqui perderam completamente aquilo que é a sua essência de qualidade. Elas é que poderiam fazer esses congressos, não eu que o faço como docente. Tudo bem que eu tenho uma estrutura que me permite fazê-lo, mas eu acho que é dever destas instituições. Eu mandei uma carta para a UnIA, que tem uma área interessante, comunicação, mandei e até agora não respondem. Mas dou o meu contributo para a sociedade e é isso que estou a fazer, vão sair dois livros meus, um precisamente este ano, uma colecção de artigos científicos que eu às vezes escrevo, vai sair o documentário, um livro que comento sobre a Lei do Investimento Privado, contributos estes que pretendo deixar para a sociedade, mas prefiro não avançar títulos. Ainda sobre a empresa, hoje nós temos muitas coisas boas, estamos a empregar jovens, nesse momento estamos com uma equipa de 5 elementos, para dar oportunidade a jovens que poderiam parar de estudar porque não têm emprego, não há quem os possa sustentar, e praticamente estou a fazer a minha parte. Paulo disse uma vez aos Coríntios: “combati o bom combate”. Eu espero poder daqui a algum tempo dizer que ajudei a sociedade a ter pessoas melhores, nesse caso, jovens que estão a trabalhar comigo no projecto empresarial. Ademais, estamos também a preparar o lançamento do Instituto Nacional das Empresas, a fim de promover formações, e estamos a ver se lançamos a primeira revista de Direito das Empresas.

Como empresário, quais é que foram as dificuldades com que mais se deparou?

Vejo sempre as dificuldades como desafios, são próprias da gestão empresarial, e são até teste de resiliência, capacidade de superação, inteligência emocional...

Foram várias dificuldades. Primeiro, ter mentalidade de empresário, que eu ainda não tenho, mas estou a tentar cultivar, porque ter mentalidade de empresário no fundo é não empreender para pensar no Estado, e isto gera problemas porque o Estado é o maior empregador para aqueles que têm condições para pagar bem as empresas, pessoal com qualidade. Eu já não critico pessoal através do CV, já despedi muitas pessoas, porque os jovens mandam e dizem que precisam de trabalhar, mas não gostam de trabalhar. Essa mentalidade pobre e medíocre das pessoas é terrível. Depois, a falta de financiamento para os grandes projectos. Nós, muitas vezes, temos grandes projectos, mas o problema é que não há dinheiro para os levar a cabo. Eu tenho dito que nós vamos ultrapassar isso, porque o nosso projecto é para ser uma das maiores empresas de formação de Angola e em termos de espaço físico isso também não é muito problema porque desde pequeno tenho muita tendência para ter escritório, mesmo em casa. Hoje, não aceito ter sócios. Sócio, se eu tiver que ter, tem que ser uma pessoa com mais dinheiro do que eu, para que o possa respeitar como tal. Você já tem tudo, paga o salário e sócio só se lhe vai dar uma grande vantagem no seu projecto, mas eu não me concentro muito em dificuldades, vejo sempre as dificuldades como desafios, são próprias da gestão empresarial, e são até teste de resiliência, capacidade de superação, inteligência emocional, área comportamental que eu estudo muito, também porque acredito que o sucesso do meu projecto de gestão empresarial tem muito a ver com essa mentalidade de não olhar muito para as dificuldades do Governo, pois os que olham muito para o Governo normalmente vêem que o seu negócio não avança muito.

Faça-nos um resumo sobre aqueles que foram os resultados do Primeiro Congresso de Direito Empresarial e quais é que são as expectativas para o evento que acontece agora em Abril.

Os primeiros eventos foram bons, e do ponto de vista financeiro poderiam ter sido melhores, mas foram boas actividades. Conseguimos ter o grupo de especialistas que nós gostaríamos, agora para o congresso de Abril estamos com boas expectativas, não obstante as matérias que vão ser discutidas, sobretudo o tema central, provavelmente não muito conhecido, até mesmo por profissionais de Direito. Contudo, temos boas expectativas e acredito que vai correr bem, estamos a trabalhar para isso, ainda apertados a nível financeiro, mas vamos conseguir fazer esse evento, sem qualquer problema. 

Disse que estuda muito a área comportamental. Quais são as suas referências de autores, nacionais ou internacionais?

Estudo muito a área comportamental, sim, não tenho nenhuma referência nacional. Uma pessoa que não é rica vai me falar como ser rica? Não é possível. De internacionais, leio Kazuo Inamori, que escreveu uma obra muito interessante sobre pessoas comuns que podem fazer coisas extraordinárias. Tenho também lido John Maxwell, que para mim é fantástico a nível da liderança e um autor que despensa comentários, aborda muito a questão das equipas e liderança. Tenho também livros muito interessantes sobre educação financeira, de Robert Kiyosaki, nomeadamente o “Pai rico, pai pobre”. Augusto Cury, que é um autor ligado intrinsecamente à componente da inteligência emocional, e há outros autores, são vários.

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Andrade Lino e Conceição Daniel

Jornalistas

 Moses Garoeb Catiavala Caiaia é um jovem angolano, nascido em Luanda a 9 de Julho de 1989, Jurista de profissão, tendo-se licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Angola. Trabalhou durante quase três anos (2013-2015) como Técnico do Gabinete Jurídico da extinta ANIP (Agência Nacional para o Investimento Privado), participou, também como técnico, na criação da Unidade Técnica de Apoio ao Investimento Privado do Ministério das Pescas (2016) e actualmente exerce a sua actividade profissional na APIEX (Agência de Promoção de Investimento e Exportações) de Angola, e é também fundador, Director-Geral e formador na empresa Ponto de Vista, vocacionada à organização de acções de formação, lançamento de obras literárias e actividades afins, que coordenou o 1º Congresso Angolano de Direito Empresarial, realizado em Outubro do ano passado, e coordena igualmente o 1º Congresso Angolano de Propriedade Industrial, que acontecerá nos próximos dias 26 e 27 deste mês. Em entrevista ao ONgoma News, Moses Caiaia conta o seu percurso enquanto formando nas áreas em que actua como empresário, a apreciação que faz sobre o estado académico, social e económico do país, bem como a ambição em ser um dos actores da mudança de mentalidade da sociedade.

Sempre pretendeu formar-se em Direito?

Bem, as nossas vidas são influenciadas por várias situações e, no caso, a minha formação média não foi em Direito, mas sim em Contabilidade e Gestão, no Instituo Médio de Economia de Luanda (IMEL), porém mais tarde percebi que era importante eu enveredar para aquilo a que achava ter aptidões. Algumas pessoas próximas, familiares, amigos, enfim, também aconselharam, recomendaram, de modo que entendi que a dada altura deveria deixar de estudar Contabilidade e Gestão, ou seja, não dar continuidade a nível do ensino superior, e fiz o curso de Direito pela Universidade Católica de Angola.

... o canudo tem que conferir o conhecimento que adquirimos, porque ter só o canudo por ter é complicado.

Fez o ensino médio de Contabilidade e Gestão, depois frequentou a Licenciatura em Direito, e hoje desenvolve muitas acções. Pode-se dizer que a pessoa que é hoje foi de certa forma influenciada pelos sonhos de outrora ou é tudo fruto das mutações da vida?

Eu não tenho só Licenciatura em Direito, estou a terminar o Mestrado em especialização de Direito Comercial pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e tenho pós-graduações (Pós-Graduado em Corporate Finance e em Corporate Governance). Sinto que havia necessidade de fazer uma convergência a nível daquilo que é a formação. Eu, particularmente, discordo, embora admita e não me repugne por causa disso, que determinadas pessoas façam formação, a nível da graduação ou pós-graduação, diferente daquilo que fizeram no ensino médio. É que as condições no nosso país são adversas, mas sempre entendo e entendi que quando as pessoas têm a possibilidade de reunir um maior número de informação dos conhecimentos técnicos e científicos sobre as áreas em relação às quais trabalham, é fundamental, e aquilo que tenho tentado fazer é, no fundo, aproveitar a minha formação superior para poder dar sentido a princípios e questões que eu entendo e que são importantes para a melhoria da vida da sociedade, no caso concreto, na vida das empresas, porque são essas que geram empregos, são essas que acabam por ser motores da economia. E o que tento fazer, então, é estudar para que determinados objectivos, pontos de vista que tenho propugnado em várias séries, nos grupos em que me enquadro, possam ser acolhidos. De modo que falar em sonhos talvez não seja o mais rigoroso, mas sim objectivos, metas, alvos a atingir, a alcançar, e talvez assim seja o mais acertado.

Mas defende que é a formação em Direito necessária para as iniciativas que dirige ou qualquer outra pessoa com vontade poderia fazer o mesmo?

Nós estamos num âmbito de actividade de investigação científica, que exige um estudo constante, e uma pessoa que quer ser um bom académico, realmente quero ser, e estou a melhorar nesse sentido, tem que obviamente ter gosto pelo estudo, mas um gosto ilimitado, ou seja, o gosto não pode acabar, de modo que o principal propósito, que está subjacente a essa necessidade de cada vez mais ter formação e uma formação sólida, não se perca. A actividade de investigação científica ainda não é muito valorizada, basta olhar para o facto de muitos dos docentes, e não só, terem obras e muitos trabalhos que podem ser objecto de publicação, livros, enfim, para que sejam objecto de estudo, de apreciação de especialistas de várias áreas e até estudantes, mas não há essa aposta, esse incentivo, de modo que entendi que o caminho deveria ser este: estudar e a partir desta formação, através da minha participação na academia, dar o contributo para melhorar aquilo tudo que deve ser melhorado.

E na sua opinião, e como académico que é, quais são os riscos que esse deficit nas academias constituem?

O deficit é grande. A academia é o suporte de um país, do ponto de vista de massa crítica, mas estamos a falar de academia com qualidade, não estamos a falar das escolas que ficam no bairro, institutos superiores onde o mais importante é a propina, quem dá aulas são licenciados. Estou a falar de uma academia séria, comprometida com o ensino com rigor e, quando falo disso, muitas pessoas dizem que eu tive a oportunidade de ir para fora. Mas não: tive a oportunidade de escolher entre estudar na UCAN e em qualquer outro sítio, e escolhi o mais difícil. No meu ponto de vista, obviamente existe a Universidade Agostinho Neto e eventualmente alguns vão dizer que existem outras, mas nós estamos a ser consumidos por instituições duvidosas no nosso país e isso porque quem pretende fazer o ensino superior não está preocupado com a qualidade da formação, está preocupado com o ter o canudo, só que as pessoas se esquecem de que sobretudo jovens acabam por ser a maior parte nesta acção, que acabam por ter desinteresse pelo ensino de qualidade, esquecem-se de que amanhã, após a licenciatura, no caso, terão a necessidade de porem em prática os conhecimentos, por isso é muito importante fazer um investimento de qualidade, é muito importante haver, da parte de quem decide escolher uma licenciatura, uma aposta séria naquilo que é o rigor, o estudo, a aplicação para que efectivamente os conhecimentos que foram aprendidos e apreendidos ao longo da licenciatura e no âmbito da actividade investigativa que a universidade queira cultivar, porque algumas ainda o fazem, a maior parte das universidades possa contribuir para o desenvolvimento do país. Dom Damião Franklin, que Deus o tenha, foi reitor da UCAN, foi meu professor de Direito Eclesiástico, dizia sempre que os “medíocres não faziam a história”, portanto deve ser uma lição que nos deixa, parte do seu rico legado. É essa frase que tenho sempre dito aos meus alunos, na UCAN ou noutros sítios onde apareço como formador, que a mediocridade não coloca ninguém nos anais da história, os que fizeram diferença no mundo da academia, enfim, são pessoas que foram extraordinárias. Aqueles que não foram extraordinários estão por aí, coitados, muitos deles engenheiros, estão a arranjar telefones nos Congolenses, São Paulo, porque as pessoas não usaram o meio, e eu não estou a dizer que as pessoas que estão nesses sítios são analfabetas, mas o que eu quero dizer é que se nós quisermos ter um bom caminho e seguir, um caminho diferente do da maioria, nós temos que nos distinguir, e essa distinção passa por termos uma formação sólida, com qualidade, e isto depende de ter que passar por boas instituições de ensino superior e não nos preocuparmos só com o canudo. Quer dizer, o canudo tem que conferir o conhecimento que adquirimos, porque ter só o canudo por ter é complicado. Eu já dei aulas (2012/2013) numa universidade, no quinto ano, em que as pessoas nem sabiam escrever em condições. Portanto, isto é para ver que esse ensino daqui espanta-me, todos os dias. Agora que os colégios viraram creche, daqui a pouco vamos assustar que casas vão ficar institutos superiores, porque isso aqui é uma proliferação parece que de igreja e ninguém acompanha.

Na sua óptica, é a formação superior o ponto de partida para se ter emprego ou o canudo não define a preparação do indivíduo para o mercado de trabalho?

Primeiro, sou contra essa ideia de estudar para ter emprego. Nem sei o que é emprego. O nosso ensino também deturpa a vida pessoas. O ensino aqui em Angola, em vez de ensinar as pessoas a empreender, ensina as pessoas a trabalhar para os outros. Quando uma pessoa quer empreender aqui é mal vista, porque “não quer estudar, só quer fazer negócios, estuda!” Que ideia é essa?! Os países desenvolvidos não se desenvolveram com essa perspectiva ou filosofia de vida. Não estou a dizer que as pessoas têm que abandonar a academia, mas o ensino já não tem qualidade. É só olhar para os jovens que concebem as redes sociais: Facebook, Instagram, Twitter, jovens cujas escolas, só mesmo no ensino de base, têm uma preparação  adequada. O Estado tem custos para um ensino superior de qualidade, mas atenção, não é como aqui, onde estudar é um sacrifício. Nós, praticamente, passamos pelo mesmo que os zungueiros.  Somos estudantes, mas andamos debaixo do sol, uns já com a sombrinha, passam fome, vão para a escola e não há merenda, por isso que eu entendo  que o nosso ensino deveria  ser revisto, pois não deveria treinar as pessoas no sentido de elas trabalharem para outros. Isto não é estudar, isso não tem qualidade, o ensino tinha que ter sobretudo na perspectiva do ensino superior não dever ensinar aquilo que as pessoas devem fazer, mas ensinar as pessoas a pensar. Eu  tenho dito aos meus alunos que eu não avalio se a resposta está certa ou errada, eu avalio a forma de pensar do aluno, a massa crítica do aluno, porque esse indivíduo quer saber se amanhã tem condições de argumentar no curso de Direito,  ou contra-argumentar. Não o vou avaliar se está certo ou se está errado, até porque o curso de Direito carrega algum subjectivismo, de modo que o nosso ensino tinha que mudar logo. Por isso é que muitos estão a terminar e ir para o Estado, e ficam tristes quando congelam o ingresso na função pública. Quer dizer, entrou para a universidade com a ideia de  ir no Estado e ganhar 30/20 mil kz e depois ficar corrupto. Essa situação tem que acabar, nós temos que ter um ensino que promove empreendedorismo, que promove massa crítica, que promove emprego, os jovens que estão a sair da universidade têm que criar, organizar  incubadoras, têm que estar a organizar centros de investigação científica, saber, ter conhecimento, não esse ensino que tem pessoas que não sabem escrever mas são licenciadas, um aluno que faz Direito não gosta de falar, mesmo sendo o seu instrumento a oratória. O que vão fazer?  Acontece em engenharia: os prédios estão tortos porque os engenheiros não gostam de matemática, não pode. Esse ensino tem que ser revisto em tudo, educação financeira tem que se colocar nas escolas, as nossas crianças têm que aprender porque aqui gasta-se muito dinheiro em vão. É preciso rever isso, por isso é que vemos Bill Gates a usar as mesmas calças na mesma semana, pensando que é burro, quando tem mais dinheiro do que nós que estamos cheios de fato, mas dormimos na esteira.

Mas a que se deve essa situação?

Para dizer que tem a ver com a mentalidade da sociedade. Eles evoluíram nesse ponto de vista: têm educação financeira, usam o dinheiro para aquilo que é realmente importante para empreender, e não como nós usamos o dinheiro – para comprar carro, para mostrar que nos vestimos bem, o primeiro salário é para gastar em vão, molhar o bico. Mas molhar o quê?  Empreenda! Use aquele dinheiro para gerar empreendimento. O nosso ensino tem que ter esse propósito, mas aqui, quando a pessoa fica a empreender é enfeitiçada… É complicado. De preferência a pessoa continuar pobre, e também rico não pode ir a muitos sítios. Noutros países não é assim, mas isso não quer dizer que as pessoas tenham que deixar de empreender, as pessoas têm que pensar que a sociedade tem  que evoluir, e o ensino tem que mudar, nem todos têm que ser doutores, e não estou a dizer isso  porque eu estudei. Eu tenho dito sempre que a estatura de procurador ou advogado é quase emprego: Você termina e não tem emprego, vai à ordem e vira advogado. Isto é brincar com a actividade de advogado. Temos indivíduos coitados, estão a passar mal na profissão, um advogado não tem dignidade, é como o caso dos professores: hoje ser professor em Angola do ensino de base é emprego, mas isso é vocação, não pode ser emprego, por isso é que os nossos jovens estão a estudar mal. Como é que um pai escreve melhor que o professor do filho?  Não deveria ser essa regra, e claro que o pai do filho também  tem que saber, mas o professor tinha que ser referência para a criança e esse é o problema do nosso ensino. Se nós começarmos a expulsar toda gente que tem que estudar, toda gente que tem que fazer Licenciatura, o resultado é desastroso. Estávamos com a ideia de que primeiro tínhamos que nos preocupar com a quantidade, agora é que queremos olhar para a qualidade, mas não é assim. Essas pessoas que estão a ter estatuto de licenciados, de técnicos superiores, nessas universidades que estão a ser criadas, quando quiserem ir para fora do país, estudar numa boa universidade, não entram, e também nunca estão preocupadas em estudar numa boa universidade lá fora, porque sabe mesmo que não vai chegar a uma instituição, uma universidade de Haward ou Cambridge.

De que forma se pode alterar esse quadro?

... estar numa universidade ou sair dela não é garantia de sucesso em lado nenhum nas nossas vidas. Quem vai às praças consegue ver tantos doutores que perderam 5 ou 4 anos a pagar propinas, estão aí a fazer o quê? Então, uma pessoa que termina Licenciatura em Direito vai ser caixa num banco?

Temos que repensar numa reforma de currículos, mudar a filosofia de estudo, nós aqui, sob influência do ensino português, é muita teoria, muitos livros, fascículos, por isso temos muitos juristas que só falam muito na televisão, muitos verbos, querem ter tudo, mas pronto,  deveríamos  ter uma visão de âmbito saxónico, muito para a dinâmica, estudar  para aplicar o conhecimento, não é estudar só  para dizer “Eu estudei”, “Eu sou doutor”  e na prática não sabe nada. Isso exige que os estudantes nos últimos anos da universidade tenham já estágios por meio de protocolos das instituições de ensino  com as empresas e exige reforma do conteúdo programado de algumas disciplinas dos vários cursos, exige reforma curricular, exige valorização dos professores. Portanto, estar numa universidade ou sair dela não é garantia de sucesso em lado nenhum nas nossas vidas. Quem vai às praças consegue ver tantos doutores que perderam 5 ou 4 anos a pagar propinas, estão aí a fazer o quê? Então, uma pessoa que termina Licenciatura em Direito vai ser caixa num banco? Com tantas saídas profissionais  que existem na advocacia, pode ser procurador, advogado, consultor, juíz, ele próprio nem valoriza a sua formação.

Estive com um jovem há tempos e por acaso é um jovem muito inteligente, caixa do banco. Você que tinha que fazer revisão dos livros, das obras, publicações, contar dinheiro? Repito, é preciso mudarmos o paradigma de ensino para aquilo que é o correcto. Eu não discuto sobre emprego porque para mim o nosso ensino está mal e a única solução talvez seja ensinar o meu filho a ter dinheiro a partir já de casa, em vez de estar numa escola em que o professor não aparece quando chove. Por outro lado, nós nos seguimos muito. Agora também está na moda todos fazerem Direito, Gestão, como no caso da Sonangol, quando disseram que estava a falir, agora estão na AGT, quando descobriram que já não estava a dar, rumo ao BNA. As pessoas têm que aprender a investigar, a trabalhar numa actividade concreta para terem domínio, e isso não se faz só com emprego, isso faz-se com foco, educação e atenção, senão vamos deturpar a nossa sociedade que já está uma confusão.

Durante os anos 2013 e 2014, foi docente (assistente estagiário) das cadeiras de Direito Comercial, Direito das Sociedades Comerciais e Direitos Reais, na Universidade Católica de Angola. O que é que pôde cultivar durante esse percurso?

Cultivei muita coisa. Foi importante e, logo que terminei a Licenciatura em 2012, fui logo convidado, graças a Deus, para dar aulas como assistente estagiário. Como eu não concordo que o licenciado deve dar aulas sempre, eu parei de dar aulas e eu próprio fiz a minha carta e fui estudar para fazer o meu mestrado. Eu não falo só, aquilo que eu entendo, que eu defendo, eu também procuro aplicar. Agora vou reentrar, em princípio vou voltar a dar aulas na UMA, talvez  o próximo ano reintegre na UCAN com estatuto de mestre e já com a minha dissertação defendida, mas isso para dizer que foi importante porque o Mestrado, do meu ponto de vista, não se faz sem ter experiência de trabalho. Para poder fazer esse caminho, tinha que necessariamente acumular experiência na academia e perceber se realmente eu quis dar aula, e é o que aconteceu durante esses dois  anos. Fui assistente  para dar e aprender porque eu tinha um regente, o Dr. Luís Nunes,  e isso foi importante porque determinou o meu  acesso à Universidade de Lisboa, e com a pouca experiência que eu já tinha, pouca mas tinha como assistente, em dois anos aprendi muito, de modo que hoje  eu vejo o ensino de uma forma muito crítica. vejo porque estudei fora e também tenho essa percepção de que o ensino daqui não tem qualidade, nem as universidades que nós dissemos ser as boas ou as melhores o são. Eu próprio estive nessa condição e contrariei (contrario) várias vezes as universidades, porque não podem ter licenciados a dar aulas há mais de 3 anos, sendo que os licenciados não têm conhecimentos aprofundados para ser professore dos outros que estão a fazer licenciatura com eles, e isto estraga o ensino.

Não podemos estar a brincar. Agora, vamos aos bairros, eu tenho amigos que tiravam zero, mas são professores. Estão a ensinar o quê aos outros? Eu não entendo como contratam essas pessoas, uma pessoa que só tira 10, 10 e 10, por isso é que a universidade de referência que temos é a UCAN. Na UAN, a média para se dar aulas é acima de 14, e mesmo lá fora, para se fazer um Mestrado a média tem que estar acima dos 14 valores, e porque é um padrão razoável.

Bem, à volta daquilo que é questão colocada, actualmente, fruto do que absorvi, estou a trazer algumas formações para cá, eu e a minha equipa. No âmbito da especialização, promovemos no ano passado o 1.º Congresso Anual Angolano Empresarial, em que falámos sobre “A Reforma de Processo de Constituição de Empresas de Angola”, agora estamos a trabalhar numa matéria nova que é a  Propriedade Industrial, uma área de Direito muito interessante que estuda as marcas, as patentes, os modelos e desenhos industriais, estuda os logótipos, as denominações, enfim, estamos aqui a fazer um esforço no sentido de levar as pessoas a trabalharem no âmbito da especialização. Os congressos são de especialidade, podem participar todas as pessoas interessadas, mas obviamente o público-alvo são aquelas pessoas que lidam ou que pretendem lidar directamente com essas matérias. Temos outros congressos, mas para já o grande congresso que vamos ter conta com oradores estrangeiros, que acontece nos próximos dias  26 e 27 de Abril.

Essas cadeiras, das quais foi assistente estagiário, foram as que lhe chamaram atenção?

São as mais difíceis. Para já, quando não queremos ser iguais aos outros, não podemos fazer as coisas que os outros fazem. Primeiro porque fui um excelente aluno nessas cadeiras, segundo porque entendi que são cadeiras nas quais os outros teriam algumas dificuldades em trabalhar. Eu não podia fazer Direito da Família, Direito de Trabalho, sem o prejuízo do respeito que tem, e outras cadeiras que toda gente faz.

Há muita gente indicada para estas cadeiras e que tem feito um grande trabalho, mas escolhi as cadeiras que muita gente não ia fazer para eu ter exclusividade. Não tenho que dividir os clientes com quase ninguém, e também, se estiver a dividir, é com pessoas grandes, mais velhos que já estão há muito tempo nisso. Escolhi por isso, escolhi uma opção na universidade, dediquei-me, disse que vou fazer essas áreas, jurídicas empresariais, de Direito, tenho formação em Contabilidade e Gestão, tenho sensibilidade para matérias jurídicas, empresariais e até económicas, e no fim eu colho isso.

Dei continuidade porque eu tinha foco, sabia o que quis, desde o ensino médio foi um processo de consolidação de conhecimento que ainda não chegou ao fim, vamos ver se chega agora com o doutoramento, porque eu penso em começar a fazer dentro de 1 ou dois anos, mas a ideia foi exactamente essa.

Esteve como Técnico de Gabinete Jurídico da ANIP (Agência Nacional para o Investimento Privado) e trabalhou também na UTAIP (Unidade Técnica de Apoio e Investimento Privado) das Pescas, isso em 2016. Como é que avalia a presença dessas instituições no país?

Nós aqui, em Angola, temos muitos problemas. Agora está aí a APIEX (Agência de Promoção de Investimentos e Exportações). Tivemos a ANIP a funcionar bem, do meu ponto de vista, com alguns problemas como qualquer instituição pública tem, mas depois surgiu uma reforma em 2015 que veio dar lugar à UTAIP, no fundo do Ministério das Pescas. É um serviço que resulta de uma decisão do Governo para a extinção da ANIP. Surgiu um novo modelo ou quadro operacional com investimento privado. Nós temos que olhar para a seriedade das nossas instituições e permitir que elas sejam maduras, nós não podemos extinguir e depois de um ano surgir outra, como está a acontecer, não há estabilidade e em matérias sensíveis como essa no caso de investimento privado as empresas devem ser sérias, como a mulher de César.

É necessário que estas instituições tenham maturidade, tempo de existência, em vez de estarem a extinguir umas e criar outras. E quanto ao sistema financeiro, na banca, não deve haver sempre substituições, temos que dar estabilidade a esse tipo de instituições, essas que reflectem a imagem do nosso país no estrangeiro, e eu penso que a nível do quadro operacional tem que haver alguma estabilidade.

Além disso, o Governo decidiu fazer uma nova instituição, extinguiu as UTAIPs, criou outras. É preciso vermos bem, e  isso deve ser complementado com medidas e lugares estáveis, pois os institutos privados são uma área transversal, possuem matérias de vários domínios: fiscal, cambial, desde que gere alguma estabilidade, porque se nós fizermos isso, só aí se poderá falar de uma avaliação positiva das instituições, porque do contrário será muito difícil falar de instituições fortes.

E qual deverá ser o pendor das mesmas nesta altura da crise económica?

Não há crise. A crise é uma coisa que os que têm dinheiro usam como justificação para o que está a acontecer com os pobres, porque continuam a comer caviar, andar de carro com ar condicionado. Se der por conta, só há baixa qualidade para ti, cujo arroz, antes comprado a 200, hoje custa 500kzs. Logo, o conceito de crise não existe, existe um conceito de oportunidade, isso é que é a questão. Quer dizer, muitos senhores abandonaram Angola e há oportunidade, claro que é preciso justificar os roubos, agora não há mais dinheiro e a conversa é a crise. Como é que normalmente as pessoas justificam separação na relação? “As coisas já não estão a correr muito bem entre nós, e já há algum tempo” e aproveita-se cada um seguir o seu caminho.

Eu próprio, nesse contexto de crise, só para dar uma ideia, quando o câmbio chega pela primeira vez nos últimos anos a 50 mil kwanzas, consegui ir fazer o meu Mestrado em Lisboa. Foi oportunidade. Agora, recebi um convite para gerir a minha empresa por meio de formações que temos dado. Sendo assim, a crise é conversa dos preguiçosos, conversa na qual não entro, porque acho que as pessoas têm que trabalhar, têm que olhar para as oportunidades, há momento agora de muitas oportunidades, porque aqueles que só estavam preocupados com o dinheiro do país foram-se e ficamos nós, que devemos ter visão de águia para enxergar as oportunidades que temos e aproveitar. Porque se o preço do petróleo descer, aqueles vão voltar e nós que estamos em crise vamos perder tempo.

É como a história da Flor de Raiz, esquece isso, assunto para distrair as pessoas e elas continuarem pobres.

Entretanto, acredita que temos sabido aproveitar estas oportunidades?

Claro que não temos sabido aproveitar. A mim espanta como é que um jovem nesse contexto de crise em que se deve empreender não estuda porque não tem dinheiro para pagar propina. Eu não posso acreditar que um jurista é pobre, vira “mixeiro”, fica à porta de instituições para tratar documentos, não posso. Ninguém pode me dizer essas coisas, repugno a magnitude de determinadas coisas, como uma pessoa que é licenciada e não tem emprego. Como? Você estudou e te ensinaram algo na escola, implementa o teu projecto. As pessoas continuam neste nível de desemprego porque estão tapadas. Eu também tenho problemas, dois escritórios para pagar renda, contratar pessoal, os custos não estão muito baratos, muitos clientes foram-se embora, mas é na crise que se vê se as pessoas são fortes ou fracas, ou na suposta crise onde se vê quem tem espírito de empreendedor. Porque enquanto alguns estão a reduzir, nós estamos a aumentar a nossa capacidade de negócio.

A minha empresa, quando começou a surgir a suposta crise, trabalhou mais em consultoria, nós olhamos mais para os outros segmentos. A empresa patrocinou-me o Mestrado, a empresa patrocinou-me a pós-graduação e aquilo que conseguimos em consultoria vamos ganhando com formação, portanto nós jogamos com a crise como oportunidade e vamos ganhando dinheiro com isso.

Várias vezes acontece, no Hotel Skyna, de eu ir dar formações e as pessoas pagarem para assistir. A crise é uma oportunidade. Quando há crise, as pessoas querem ter mais conhecimentos. Agora, quem não estudou, a culpa é sua se não consegue dar formação. Quem não estudou, o problema não é meu, as pessoas deviam saber que é exactamente por isso que o ensino de qualidade tem valor, porque quando surgem essas situações, uma pessoa que tem uma formação sólida e boa tem sempre alternativas. Eu não perco muito tempo com essas conversas de crise, porque quando falam se Isabel é que roubou é apenas para desviar as pessoas do seu foco. Ela tem banco, supermercado, e tu nem roulotte, nem gelo na tua casa vendes, não tens energia, tantos mosquitos...

Como e quando é que entra para a APIEX?

Entro para a APIEX no processo de reestruturação da ANIP. Com a extinção da ANIP, o pessoal no activo e passivo, no caso, os meios quer humanos, financeiros, quer materiais, transita automaticamente para a APIEX, e eu entro exactamente por força deste processo de extinção e consequentemente de criação dessa manifestação da empresa.

Defende que deva haver uma aposta um pouco mais rigorosa no investimento privado?

Um pouco? Tem de haver. Este país está a precisar de dinheiro e este dinheiro nos países como o nosso, em desenvolvimento, só se consegue de uma forma. Estou a falar de dinheiro de verdade, não esse dinheiro que tem sempre conexão com o Investimento Direito Estrangeiro (IDE). Para tal, tem que se atrair investimento, e atrair investimento implica um conjunto de reformas. Angola tem que melhorar o seu processamento de business, tem que melhorar as condições de fazer negócio, temos que melhorar, não podemos estar a aprovar e extinguir leis. O problema de Angola é que as coisas não mudam. Ninguém precisa de um novo código, a lei não resolve nada, a lei pode ser um mecanismo para resolver, mas é preciso que haja controlo, fiscalização, responsabilização, quem não cumprir vai sofrer. Nós temos que trabalhar muito na mentalidade do nosso país e fazê-lo nascer de novo.

Como é que surge a Ponto de Vista e qual é o seu ramo de actuação?

Paulo disse uma vez aos Coríntios: “combati o bom combate”. Eu espero poder daqui a algum tempo dizer que ajudei a sociedade a ter pessoas melhores, nesse caso, jovens que estão a trabalhar comigo no projecto empresarial. 

A empresa Ponto de Vista surge no âmbito de uma visão reformista. Eu entendo que aqui em Angola fala-se muito de educação económica, mas para mim o mais importante não é a educação económica e sim a diversificação do conhecimento. Pode ter terreno, ser agricultor, mas se você não tiver conhecimento que lhe permite desenvolver o seu terreno, não tem nada, por isso é que nós dizemos que informação é poder. Eu posso não ter dinheiro, mas se eu tiver informação tenho mais dinheiro que tu. É poder. Se nós começarmos a diversificar os conhecimentos, não vamos olhar para a actividade de administração económica, olhar para os terrenos, vamos melhorar as nossas escolas, a formação dos professores tem que ter mais qualidade, os nossos alunos têm que ter em todas as escolas uma biblioteca. Se se começa a fazer isso, significa que se está a treinar o homem para que amanhã possa ter capacidade de desenvolver as potencialidades que não são os petróleos e a partir daí dar princípios da economia. Nós estamos a ir por um caminho errado. Como é que se vai diversificar a economia com essa proliferação de que as pessoas não sabem o que estão a fazer na universidade? Porque são essas pessoas que amanhã vão para as empresas que lhes supostamente estão a dar dinheiro para diversificar a economia. Se o indivíduo não tiver capacidade orçamental para diversificar, não vai fazer nada, e não se diversifica a economia assim.

Os outros países evoluíram porque a mentalidade das pessoas mudou, e, quando a consciência muda, as pessoas não gastam dinheiro à toa, o deputado não precisa de ter Lexus, mesmo de bicicleta pode-se ir à Assembleia Nacional. Isto é diversificar o conhecimento, não há outro ponto que seja importante nessas reformas ao conhecimento e eu, quando olho para a sociedade, a minha forma de contribuir para ela é criar o projecto de formações de excelência e rigor, foco empresário, gestores, administradores, juristas, dentre outros, porque aqui as pessoas não têm cultura empresarial. “Para ser empresário tem que ter contrato com o Estado”. É assim mesmo? Este é um oportunista, porque empresário não é assim… É alguém que consegue montar um negócio. Claro que o apoio do Estado é importante, um eventual financiamento, mas não pode determinar o teu negócio. Se o Estado nunca der, nunca vais ser empresário? “Quando cair um Projovem, vou lá com um fato e gravata e sou empresário”. Não pode, e entretanto nós criamos o projecto para formar mentalidade aos empresários, empreendedores conduzir a sua actividade de gestão, que tem de ser rigorosa, com regras, diligências e princípios.

Temos dado muitas formações, congressos, isso tem muitos prejuízos, nós não achamos muito dinheiro, mas é o saber. O meu filho amanhã tem que saber que o pai fez essa sociedade estar corrigida ou lutou pelo menos para isso. Não se trata de um trabalho que a minha empresa deve sempre fazer, há instituições a quem nós pedimos para fazer o curso, mas não respondem. Isso é negócio, até posso comparar com os “mamadus” – a diferença é que vão lá fazer compra do produto diário, porque como é que uma instituição não aceita inscrever-se para um congresso? Por isso é que as instituições aqui perderam completamente aquilo que é a sua essência de qualidade. Elas é que poderiam fazer esses congressos, não eu que o faço como docente. Tudo bem que eu tenho uma estrutura que me permite fazê-lo, mas eu acho que é dever destas instituições. Eu mandei uma carta para a UnIA, que tem uma área interessante, comunicação, mandei e até agora não respondem. Mas dou o meu contributo para a sociedade e é isso que estou a fazer, vão sair dois livros meus, um precisamente este ano, uma colecção de artigos científicos que eu às vezes escrevo, vai sair o documentário, um livro que comento sobre a Lei do Investimento Privado, contributos estes que pretendo deixar para a sociedade, mas prefiro não avançar títulos. Ainda sobre a empresa, hoje nós temos muitas coisas boas, estamos a empregar jovens, nesse momento estamos com uma equipa de 5 elementos, para dar oportunidade a jovens que poderiam parar de estudar porque não têm emprego, não há quem os possa sustentar, e praticamente estou a fazer a minha parte. Paulo disse uma vez aos Coríntios: “combati o bom combate”. Eu espero poder daqui a algum tempo dizer que ajudei a sociedade a ter pessoas melhores, nesse caso, jovens que estão a trabalhar comigo no projecto empresarial. Ademais, estamos também a preparar o lançamento do Instituto Nacional das Empresas, a fim de promover formações, e estamos a ver se lançamos a primeira revista de Direito das Empresas.

Como empresário, quais é que foram as dificuldades com que mais se deparou?

Vejo sempre as dificuldades como desafios, são próprias da gestão empresarial, e são até teste de resiliência, capacidade de superação, inteligência emocional...

Foram várias dificuldades. Primeiro, ter mentalidade de empresário, que eu ainda não tenho, mas estou a tentar cultivar, porque ter mentalidade de empresário no fundo é não empreender para pensar no Estado, e isto gera problemas porque o Estado é o maior empregador para aqueles que têm condições para pagar bem as empresas, pessoal com qualidade. Eu já não critico pessoal através do CV, já despedi muitas pessoas, porque os jovens mandam e dizem que precisam de trabalhar, mas não gostam de trabalhar. Essa mentalidade pobre e medíocre das pessoas é terrível. Depois, a falta de financiamento para os grandes projectos. Nós, muitas vezes, temos grandes projectos, mas o problema é que não há dinheiro para os levar a cabo. Eu tenho dito que nós vamos ultrapassar isso, porque o nosso projecto é para ser uma das maiores empresas de formação de Angola e em termos de espaço físico isso também não é muito problema porque desde pequeno tenho muita tendência para ter escritório, mesmo em casa. Hoje, não aceito ter sócios. Sócio, se eu tiver que ter, tem que ser uma pessoa com mais dinheiro do que eu, para que o possa respeitar como tal. Você já tem tudo, paga o salário e sócio só se lhe vai dar uma grande vantagem no seu projecto, mas eu não me concentro muito em dificuldades, vejo sempre as dificuldades como desafios, são próprias da gestão empresarial, e são até teste de resiliência, capacidade de superação, inteligência emocional, área comportamental que eu estudo muito, também porque acredito que o sucesso do meu projecto de gestão empresarial tem muito a ver com essa mentalidade de não olhar muito para as dificuldades do Governo, pois os que olham muito para o Governo normalmente vêem que o seu negócio não avança muito.

Faça-nos um resumo sobre aqueles que foram os resultados do Primeiro Congresso de Direito Empresarial e quais é que são as expectativas para o evento que acontece agora em Abril.

Os primeiros eventos foram bons, e do ponto de vista financeiro poderiam ter sido melhores, mas foram boas actividades. Conseguimos ter o grupo de especialistas que nós gostaríamos, agora para o congresso de Abril estamos com boas expectativas, não obstante as matérias que vão ser discutidas, sobretudo o tema central, provavelmente não muito conhecido, até mesmo por profissionais de Direito. Contudo, temos boas expectativas e acredito que vai correr bem, estamos a trabalhar para isso, ainda apertados a nível financeiro, mas vamos conseguir fazer esse evento, sem qualquer problema. 

Disse que estuda muito a área comportamental. Quais são as suas referências de autores, nacionais ou internacionais?

Estudo muito a área comportamental, sim, não tenho nenhuma referência nacional. Uma pessoa que não é rica vai me falar como ser rica? Não é possível. De internacionais, leio Kazuo Inamori, que escreveu uma obra muito interessante sobre pessoas comuns que podem fazer coisas extraordinárias. Tenho também lido John Maxwell, que para mim é fantástico a nível da liderança e um autor que despensa comentários, aborda muito a questão das equipas e liderança. Tenho também livros muito interessantes sobre educação financeira, de Robert Kiyosaki, nomeadamente o “Pai rico, pai pobre”. Augusto Cury, que é um autor ligado intrinsecamente à componente da inteligência emocional, e há outros autores, são vários.

Andrade Lino e Conceição Daniel

Jornalistas

Licenciado em Gestão e Administração pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, Félix Abias é um jornalista angolano que explora temas ligados à política e economia local. Actualmente trabalha para o Grupo Média Rumo

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