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Fradique lembra como o Prémio Nacional de Cultura foi marcante para si e para a Geração 80

Fradique lembra como o Prémio Nacional de Cultura foi marcante para si e para a Geração 80
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O realizador angolano Fradique lembrou três grandes momentos que viveu enquanto membro e co-fundador da produtora Geração 80, sendo um deles quando recebeu o Prémio Nacional de Cultura de Cinema, em 2015, com o documentário “Independência”.

Falando em entrevista ao programa Taça Cheia, da Rádio Essencial, dirigido pelo jornalista Sebastião Vemba, o jovem cineasta fez estas declarações a propósito dos 10 anos de existência da Geração 80, e considerou gratificante o documentário para a “nossa geração”, após trabalhar nele por 6 anos, a primeira longa-metragem da produtora.

O segundo momento foi a estreia do filme “Para lá dos meus Passos”, que conta com a realização de Kamy Lara. “Foi extremamente importante, pelo que o filme contava e pelo acto simbólico de nós ocuparmos um espaço que já não era ocupado há algum tempo”.

Contou, então, que o terceiro momento é marcado ao longo destes 10 anos, referindo a quantidade de pessoas incríveis que já passaram pela Geração 80 e muitas delas continuam lá, muitas delas são motivo de inspiração, pela energia e vontade de se envolver nessa área em que não estão propriamente ligadas, sendo que o grupo trabalha com pessoas de diferentes áreas de formação, “pessoas que vieram para o audiovisual sem ter essa formação”.

Mário Bastos, ou Fradique, como é melhor conhecido, declarou ainda que estes 10 anos passaram rápido. Foram 10 anos com muitas horas e muito trabalho. “Projectos como a Geração 80 só conseguem existir, não pelo esforço individual, mas pelo esforço colectivo, e hoje somos quase 20 pessoas e são muitas horas dedicadas a tentar fazer não só cinema e cultura, mas também criar um espaço entre o sector visual em que um realizador, um operador de câmara e um produtor possam dizer ser um profissional”.

O especialista expressou que isso é extremamente difícil porque não é uma preocupação do sector publicitário, ao nível do sector comercial, fazer campanha e fazer publicidade, é um sector muito ocupado por produtoras estrangeiras e que ao longo destes últimos 10 anos tem diminuído bastante. O que pode resumir, no entanto, sobre este anos, é que a Geração 80 chegou ao fim dos 10 anos muito cansada, mas ao mesmo tempo, a sua ideia agora é estar aberta a novas gerações, uma vez que já integra pessoas que nasceram nos anos 90, porque precisa desta nova energia, deste pessoal mais jovem e de comunicar com esta nova geração.

“E, realmente, também chegamos numa fase em que podemos usar todas as nossas experiências, pois antes estávamos a experimentar muitas coisas, mas hoje em dia já conseguimos tomar boas decisões em função da experiência, no que diz respeito a um projecto, e isso é bastante gratificante enquanto profissional, porque nunca se perde aquele medo, quando se está a ir gravar um filme. Aquele desconhecido qualquer artista precisa, mas ao mesmo tempo, aquela certeza da experiência foi essencial porque nos primeiros anos a gente tem muita energia e comete muitos erros”, partilhou.

Este cansaço, revelou, é uma mistura da constante experiência e do contexto sócio-económico que vivemos nos últimos 6 anos. “A nossa realidade está a afectar todos os sectores e também o nosso que não é exactamente um sector desenvolvido, não é preocupação para o país, a cultura e o audiovisual não estão na agenda política do país. E se a educação não esta, não podemos esperar tanto”, disse.

No seu entender, com o surgimento da Covid-19, muitos países estão a ser destapados e ao mesmo tempo a avançar várias coisas, e acredita que os países, depois de passarem esta fase, vão pensar melhor naquilo que é de facto prioritário e, por conseguinte, melhorar algumas coisas.

“O cansaço vem um pouco daí, de ser um projecto de que faço parte e sou co-fundador e o número de hora e investimento que temos de ter, não só de criar equipa porque hoje em dia há muitas produtoras estrangeiras e locais que tiveram de fechar, mas para manter a nossa estrutura foi preciso muito esforço e agora muito mais esforço em tempos de crise, numa altura em que as pessoas precisam de comunicar cada vez mais, e felizmente ainda temos trabalho, mas há pouco”, esclareceu Fradique.

Sobre a expansão dos filmes, o realizador disse que eles devem ser divulgados, porque não há interesse por parte da produtora em fazer um filme para um número reduzido de pessoas, nem tão pouco para ficar nas casas dos membros ou dentro da Geração.

“Queria muito fazer a minha primeira longa-metragem em ficção porque fiquei muito tempo trabalhando no documentário “Independência”, e estou ainda a desenvolver um projecto baseado no romance de José Luís Mendonça, “O Reino das Casuarinas”, mas este projecto vai levar algum tempo ainda. Então, decidi avançar com o projecto “Ar-condicionado”, que era algo que eu já tinha começado a escrever e já estava a ser trabalhado há cerca de dois anos, filme que estreou em Amsterdão”, contou.

Em suma, uma das coisas que ajudou o colectivo ao longo destes 10 anos, revelou Fradique, foi o facto de ter conseguido criar uma estrutura com pessoas, com equipamentos e parcerias que lhe permitiu fazer este filme com muito esforço e também apoio das pessoas.

“Estamos a falar de um filme que teve a direcção de fotografia de Ery Claver, trilha sonora de Aline Frazão, com a música de Paulo Flores, que fizeram todos por um valor simbólico, pois todo pessoal que participou sabia que o mais importante era fazer o filme, dar esse passo e começar a criar realmente as condições para que nos outros projectos a gente consiga ter um backup financeiro muito melhor, mais apoios e mais investimentos”, descreveu.

O profissional disse por fim que se tornou cansativo esperar que o cinema cresça com a ajuda do Estado.

“Por causa de todas estas questões, continuamos a insistir em continuar a fazer cinema, porque acreditamos nesta arte e que nos ajuda a reflectir enquanto angolanos, vendo-nos na TV a representar”, afirmou, e realçou que insistirá sempre.

*Com Francisca Morais Parente

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Andrade Lino

Jornalista

Estudante de Língua Portuguesa e Comunicação, amante de artes visuais, música e poesia.

O realizador angolano Fradique lembrou três grandes momentos que viveu enquanto membro e co-fundador da produtora Geração 80, sendo um deles quando recebeu o Prémio Nacional de Cultura de Cinema, em 2015, com o documentário “Independência”.

Falando em entrevista ao programa Taça Cheia, da Rádio Essencial, dirigido pelo jornalista Sebastião Vemba, o jovem cineasta fez estas declarações a propósito dos 10 anos de existência da Geração 80, e considerou gratificante o documentário para a “nossa geração”, após trabalhar nele por 6 anos, a primeira longa-metragem da produtora.

O segundo momento foi a estreia do filme “Para lá dos meus Passos”, que conta com a realização de Kamy Lara. “Foi extremamente importante, pelo que o filme contava e pelo acto simbólico de nós ocuparmos um espaço que já não era ocupado há algum tempo”.

Contou, então, que o terceiro momento é marcado ao longo destes 10 anos, referindo a quantidade de pessoas incríveis que já passaram pela Geração 80 e muitas delas continuam lá, muitas delas são motivo de inspiração, pela energia e vontade de se envolver nessa área em que não estão propriamente ligadas, sendo que o grupo trabalha com pessoas de diferentes áreas de formação, “pessoas que vieram para o audiovisual sem ter essa formação”.

Mário Bastos, ou Fradique, como é melhor conhecido, declarou ainda que estes 10 anos passaram rápido. Foram 10 anos com muitas horas e muito trabalho. “Projectos como a Geração 80 só conseguem existir, não pelo esforço individual, mas pelo esforço colectivo, e hoje somos quase 20 pessoas e são muitas horas dedicadas a tentar fazer não só cinema e cultura, mas também criar um espaço entre o sector visual em que um realizador, um operador de câmara e um produtor possam dizer ser um profissional”.

O especialista expressou que isso é extremamente difícil porque não é uma preocupação do sector publicitário, ao nível do sector comercial, fazer campanha e fazer publicidade, é um sector muito ocupado por produtoras estrangeiras e que ao longo destes últimos 10 anos tem diminuído bastante. O que pode resumir, no entanto, sobre este anos, é que a Geração 80 chegou ao fim dos 10 anos muito cansada, mas ao mesmo tempo, a sua ideia agora é estar aberta a novas gerações, uma vez que já integra pessoas que nasceram nos anos 90, porque precisa desta nova energia, deste pessoal mais jovem e de comunicar com esta nova geração.

“E, realmente, também chegamos numa fase em que podemos usar todas as nossas experiências, pois antes estávamos a experimentar muitas coisas, mas hoje em dia já conseguimos tomar boas decisões em função da experiência, no que diz respeito a um projecto, e isso é bastante gratificante enquanto profissional, porque nunca se perde aquele medo, quando se está a ir gravar um filme. Aquele desconhecido qualquer artista precisa, mas ao mesmo tempo, aquela certeza da experiência foi essencial porque nos primeiros anos a gente tem muita energia e comete muitos erros”, partilhou.

Este cansaço, revelou, é uma mistura da constante experiência e do contexto sócio-económico que vivemos nos últimos 6 anos. “A nossa realidade está a afectar todos os sectores e também o nosso que não é exactamente um sector desenvolvido, não é preocupação para o país, a cultura e o audiovisual não estão na agenda política do país. E se a educação não esta, não podemos esperar tanto”, disse.

No seu entender, com o surgimento da Covid-19, muitos países estão a ser destapados e ao mesmo tempo a avançar várias coisas, e acredita que os países, depois de passarem esta fase, vão pensar melhor naquilo que é de facto prioritário e, por conseguinte, melhorar algumas coisas.

“O cansaço vem um pouco daí, de ser um projecto de que faço parte e sou co-fundador e o número de hora e investimento que temos de ter, não só de criar equipa porque hoje em dia há muitas produtoras estrangeiras e locais que tiveram de fechar, mas para manter a nossa estrutura foi preciso muito esforço e agora muito mais esforço em tempos de crise, numa altura em que as pessoas precisam de comunicar cada vez mais, e felizmente ainda temos trabalho, mas há pouco”, esclareceu Fradique.

Sobre a expansão dos filmes, o realizador disse que eles devem ser divulgados, porque não há interesse por parte da produtora em fazer um filme para um número reduzido de pessoas, nem tão pouco para ficar nas casas dos membros ou dentro da Geração.

“Queria muito fazer a minha primeira longa-metragem em ficção porque fiquei muito tempo trabalhando no documentário “Independência”, e estou ainda a desenvolver um projecto baseado no romance de José Luís Mendonça, “O Reino das Casuarinas”, mas este projecto vai levar algum tempo ainda. Então, decidi avançar com o projecto “Ar-condicionado”, que era algo que eu já tinha começado a escrever e já estava a ser trabalhado há cerca de dois anos, filme que estreou em Amsterdão”, contou.

Em suma, uma das coisas que ajudou o colectivo ao longo destes 10 anos, revelou Fradique, foi o facto de ter conseguido criar uma estrutura com pessoas, com equipamentos e parcerias que lhe permitiu fazer este filme com muito esforço e também apoio das pessoas.

“Estamos a falar de um filme que teve a direcção de fotografia de Ery Claver, trilha sonora de Aline Frazão, com a música de Paulo Flores, que fizeram todos por um valor simbólico, pois todo pessoal que participou sabia que o mais importante era fazer o filme, dar esse passo e começar a criar realmente as condições para que nos outros projectos a gente consiga ter um backup financeiro muito melhor, mais apoios e mais investimentos”, descreveu.

O profissional disse por fim que se tornou cansativo esperar que o cinema cresça com a ajuda do Estado.

“Por causa de todas estas questões, continuamos a insistir em continuar a fazer cinema, porque acreditamos nesta arte e que nos ajuda a reflectir enquanto angolanos, vendo-nos na TV a representar”, afirmou, e realçou que insistirá sempre.

*Com Francisca Morais Parente

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