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Valete e o resgate do“Rap Consciente”

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Se é pra morrê, morremo de pé”. Esta é a frase despertadora que se ouve ao pressionarmos o play para ouvir a música “Rap Consciente” de Valete, que critica a desgovernação em que anda o Hip-Hop, que cada vez mais vai-se distanciando da sua matriz humanista e contra-cultural, afirmou o músico em resposta a notícias que davam conta de que as suas “barras” se dirigiam ao Prodígio e à Força Suprema.

Contrariamente, Valete afirmou, em comunicado divulgado pelo site Luso Hip-Hop, que a ideia da música não é individualizar mas sim abordar um problema geral do que se  está a viver na música Rap e na cultura Hip-Hop.  Para ele, “o Hip-Hop está a [...] tornar-se cada vez mais um tubo de ensaio para experiências de novos hedonismos e novos materialismos”.

Baixe aqui as músicas "Poder" e "Rap Consciente".

Obviamente que, como diz o ditado, para um bom entendedor meia palavra basta, daí que não durou muito tempo para que o público e analistas da cultura Hip-Hop se dedicassem a queimar neurónios para perceber a quem mais serve a carapuça lançada por Valete, que num passado recente se tornou numa das principais referências da música rap em português.

 

Licenciado em Ciências da Comunicação pelo ISCSP, Valete lançou em 2002, de forma independente, o álbum Educação Visual, e quatro anos depois apresentou o álbum Serviço Público. Enquanto no primeiro trabalho o rapper se apresentou mais como um freestyler e MC de batalha, no segundo mostrou-se mais como uma analista social e político, trazendo mesmo ao debate temas controversos como religião e sexo.

Entretanto, depois de em 2009 Valete ter anunciado que lançaria um novo álbum, intitulado “Homo Libero”, por motivos que são do desconhecimento público, esse lançamento não chegou a concretizar-se, sendo que se espera que o trabalho seja lançado no final de 2017.

E  a verdade é que neste intervalo de quase oito anos, o cenário do Hip-Hop mudou, tanto ao nível do mundo – com destaque para os Estados Unidos da América – quanto ao nível lusófono, sendo que em Angola e Portugal, em particular, novos nomes ascenderam à ribalta, e cativaram, por mérito, a atenção do público, embora o posicionamento  de alguns deles como artistas e influenciadores de massas seja criticado.

Curiosamente, apesar de Angola vir a registar, desde 2011, vários factos políticos que poderiam ser abordados em música, mantendo-se assim viva a chama do “Rap Consciente”, que é associado ao activismo político e social, houve um abrandamento da produção de música com conteúdo político explícito e consciente, muito devido à repressão dirigida de que muitos rappers foram alvos, mas também devido a um menor compromisso e maior receio de ter conotação ao movimento de jovens que saem à rua para protestar contra o actual regime o político e a liderança do Presidente José Eduardo dos Santos.

... neste intervalo de quase oito anos, o cenário do Hip-Hop mudou, tanto ao nível do mundo – com destaque para os Estados Unidos da América – quanto ao nível lusófono, sendo que em Angola e Portugal, em particular, novos nomes ascenderam à ribalta, e cativaram, por mérito, a atenção do público.

Mas, apesar da repressão, continuamos a ouvir mensagens novas de MCK – que não deixou de promover eventos culturais alternativos para contornar as proibições de que tem sido alvo e deu o rosto pela defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão em Angola, em particular na campanha de solidariedade aos presos do “Caso 15+2” - ; Flagelo Urbano lançou o seu primeiro álbum; mas também novos nomes ganharam notoriedade, com destaque para Sanguinário e o grupo Fat Soldiers.

 
... deve-se ainda promover uma maior interacção dos artistas com o público, através não só de espectáculos, mas também de palestras e workshops em que se produzam ideias geradoras de mudanças sociais e políticas. Isso sim é o resgate do “Rap Consciente” e da matriz humanista e contra-cultural do Hip-Hop.

Não sendo Valete o salvador da “Não Hip-Hop” ou o detentor de alguma verdade absoluta sobre que tema devem ser abordados no rap e que tipo de música devemos ouvir, “Rap Consciente” é, acima de tudo, um lembrete de que o Hip-Hop é mais do que música e que é necessário que o MC não se desligue da sociedade de que é parte, nem tape o sol com peneira, e não feche os olhos diante de injustiças sociais. O rap deve preservar a sua matriz humanista e de defesa de sociedades democráticas e pluralistas. Sendo assim, mais do que combater a música de alienação, que promove o materialismo e a falsa ideia de que sucesso vem fácil, deve-se produzir mais “Rap Consciente” que conquiste a atenção do público, que preencha os espaços de antena das rádios e televisões, embora reconheçamos as dificuldades de se atingir este objectivo em consequência da parcialidade dos meios de comunicação. E deve-se ainda promover uma maior interacção dos artistas com o público, através não só de espectáculos, mas também de palestras e workshops em que se produzam ideias geradoras de mudanças sociais e políticas. Isso sim é o resgate do “Rap Consciente” e da matriz humanista e contra-cultural do Hip-Hop.

A propósito, aproveito endereçar palavras de encorajamento à Eva Rap Diva, que, apesar de subir patamares no mainstream, não se esqueceu da sua função de influenciadora da massas e continua a assumir uma posição diante de factos políticos, sociais e culturais relevantes que ocorram no país. Infelizmente, até os ditos promotores do Underground e do “Rap Consciente”, muitas vezes mantêm-se amorfos diante de situações em que o tempo pára depois de um abençoado esbanjar uma fortunada de origem duvidosa num relógio. Já agora, desejo ouvir um rap sobre este tema.

 
 

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Sebastião Vemba

Fundador e Director Editorial do ONgoma News

Jornalista, apaixonado pela escrita, fotografia e artes visuais. Tem interesses nas novas medias, formação e desenvolvimento comunitário.

Se é pra morrê, morremo de pé”. Esta é a frase despertadora que se ouve ao pressionarmos o play para ouvir a música “Rap Consciente” de Valete, que critica a desgovernação em que anda o Hip-Hop, que cada vez mais vai-se distanciando da sua matriz humanista e contra-cultural, afirmou o músico em resposta a notícias que davam conta de que as suas “barras” se dirigiam ao Prodígio e à Força Suprema.

Contrariamente, Valete afirmou, em comunicado divulgado pelo site Luso Hip-Hop, que a ideia da música não é individualizar mas sim abordar um problema geral do que se  está a viver na música Rap e na cultura Hip-Hop.  Para ele, “o Hip-Hop está a [...] tornar-se cada vez mais um tubo de ensaio para experiências de novos hedonismos e novos materialismos”.

Baixe aqui as músicas "Poder" e "Rap Consciente".

Obviamente que, como diz o ditado, para um bom entendedor meia palavra basta, daí que não durou muito tempo para que o público e analistas da cultura Hip-Hop se dedicassem a queimar neurónios para perceber a quem mais serve a carapuça lançada por Valete, que num passado recente se tornou numa das principais referências da música rap em português.

 

Licenciado em Ciências da Comunicação pelo ISCSP, Valete lançou em 2002, de forma independente, o álbum Educação Visual, e quatro anos depois apresentou o álbum Serviço Público. Enquanto no primeiro trabalho o rapper se apresentou mais como um freestyler e MC de batalha, no segundo mostrou-se mais como uma analista social e político, trazendo mesmo ao debate temas controversos como religião e sexo.

Entretanto, depois de em 2009 Valete ter anunciado que lançaria um novo álbum, intitulado “Homo Libero”, por motivos que são do desconhecimento público, esse lançamento não chegou a concretizar-se, sendo que se espera que o trabalho seja lançado no final de 2017.

E  a verdade é que neste intervalo de quase oito anos, o cenário do Hip-Hop mudou, tanto ao nível do mundo – com destaque para os Estados Unidos da América – quanto ao nível lusófono, sendo que em Angola e Portugal, em particular, novos nomes ascenderam à ribalta, e cativaram, por mérito, a atenção do público, embora o posicionamento  de alguns deles como artistas e influenciadores de massas seja criticado.

Curiosamente, apesar de Angola vir a registar, desde 2011, vários factos políticos que poderiam ser abordados em música, mantendo-se assim viva a chama do “Rap Consciente”, que é associado ao activismo político e social, houve um abrandamento da produção de música com conteúdo político explícito e consciente, muito devido à repressão dirigida de que muitos rappers foram alvos, mas também devido a um menor compromisso e maior receio de ter conotação ao movimento de jovens que saem à rua para protestar contra o actual regime o político e a liderança do Presidente José Eduardo dos Santos.

... neste intervalo de quase oito anos, o cenário do Hip-Hop mudou, tanto ao nível do mundo – com destaque para os Estados Unidos da América – quanto ao nível lusófono, sendo que em Angola e Portugal, em particular, novos nomes ascenderam à ribalta, e cativaram, por mérito, a atenção do público.

Mas, apesar da repressão, continuamos a ouvir mensagens novas de MCK – que não deixou de promover eventos culturais alternativos para contornar as proibições de que tem sido alvo e deu o rosto pela defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão em Angola, em particular na campanha de solidariedade aos presos do “Caso 15+2” - ; Flagelo Urbano lançou o seu primeiro álbum; mas também novos nomes ganharam notoriedade, com destaque para Sanguinário e o grupo Fat Soldiers.

 
... deve-se ainda promover uma maior interacção dos artistas com o público, através não só de espectáculos, mas também de palestras e workshops em que se produzam ideias geradoras de mudanças sociais e políticas. Isso sim é o resgate do “Rap Consciente” e da matriz humanista e contra-cultural do Hip-Hop.

Não sendo Valete o salvador da “Não Hip-Hop” ou o detentor de alguma verdade absoluta sobre que tema devem ser abordados no rap e que tipo de música devemos ouvir, “Rap Consciente” é, acima de tudo, um lembrete de que o Hip-Hop é mais do que música e que é necessário que o MC não se desligue da sociedade de que é parte, nem tape o sol com peneira, e não feche os olhos diante de injustiças sociais. O rap deve preservar a sua matriz humanista e de defesa de sociedades democráticas e pluralistas. Sendo assim, mais do que combater a música de alienação, que promove o materialismo e a falsa ideia de que sucesso vem fácil, deve-se produzir mais “Rap Consciente” que conquiste a atenção do público, que preencha os espaços de antena das rádios e televisões, embora reconheçamos as dificuldades de se atingir este objectivo em consequência da parcialidade dos meios de comunicação. E deve-se ainda promover uma maior interacção dos artistas com o público, através não só de espectáculos, mas também de palestras e workshops em que se produzam ideias geradoras de mudanças sociais e políticas. Isso sim é o resgate do “Rap Consciente” e da matriz humanista e contra-cultural do Hip-Hop.

A propósito, aproveito endereçar palavras de encorajamento à Eva Rap Diva, que, apesar de subir patamares no mainstream, não se esqueceu da sua função de influenciadora da massas e continua a assumir uma posição diante de factos políticos, sociais e culturais relevantes que ocorram no país. Infelizmente, até os ditos promotores do Underground e do “Rap Consciente”, muitas vezes mantêm-se amorfos diante de situações em que o tempo pára depois de um abençoado esbanjar uma fortunada de origem duvidosa num relógio. Já agora, desejo ouvir um rap sobre este tema.

 
 

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