Entrevista
Eleições

Sérgio Calundungo: “Nos últimos tempos vivemos uma certa crise democracia”

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Sérgio Calundungo, coordenador do Obsersatório Político e Social de Angola (OPSA), considera que Angola ainda está em fase inicial da criação de uma cultura de eleições, sendo que, se vive no país, nos útimos tempos, uma certa crise democracia, motivada, em grande medida, pelo desfecho das eleições de 1992. Para o entrevistado do ONgoma News, a democratização do país e normalização dos processos eleitores foi interrompida mal tinha começado.  “Tivemos eleições em 92, em que o nível de participação cívica foi muito alto.  Lembro-me de ter sido um momento de bastante entusiasmo, o país abria-se ao multipartidarismo, mas depois, desde 2008, e à medida que o tempo foi passando, desgastou-se muito a imagem dos políticos e da política”, afirmou.

 

Entrou-se, há já algumas semanas, efectivamente no período de campanha eleitoral,  e tem-se assistido à muita actividade política, embora de um tempo a esta parte tenha sido possível acompanhar muito dinamismo dos partidos em época de pré-campanha. Também teve essa impressão?

Sim. Acho que a nossa pré-campanha muito se confundia com uma campanha. Foi muito activa, com muitos dos actores políticos na rua, e os pronunciamentos dos mesmos eram mais como se estivessem em fase de campanha, isso se fizermos uma comparação com os anos anteriores.

E isso é bom ou mau?

Creio que seja bom, porque, se reparar, em Angola, uma vez dada a autorização aos políticos parea que nos representem no parlamento, ou governem em nosso nome, deixa de haver essa ligação entre os governantes e a sociedade. Várias localidades do país viveram uma espécie de efervescência política, porque os políticos foram ao encontro da população falar das suas ideias e objectivos para com o Angola. Acredito que tudo isso seja positivo.

Este ano, sendo as primeiras eleições em que não participa o Presidente José Eduardo dos Santos, Angola está claramente numa fase de transição, ainda que o candidato do MPLA venha do ciclo de José Eduardo dos Santos...
"Eu creio que os ciclos de interesses acabam sempre se instalando. Agora, resta saber à volta de que interesses, pois há os positivos e os negativos", afirmou.

E quais as perspectivas de mudança e alteração do status quo político, isso em termos de concretização das promessas feitas pelos políticos?

Nos últimos tempos vivemos uma certa crise democracia e ainda estamos a criar a cultura de eleições. Tivemos eleições em 92, em que o nível de participação cívica foi muito alto.  Lembro-me de ter sido um momento de bastante entusiasmo, o país abria-se ao multipartidarismo, mas depois, desde 2008, e à medida que o tempo foi passando, desgastou-se muito a imagem dos políticos e da política. Eu acho que as eleições em 2008 aconteceram muito com uma forte apreensão de retoma ao conflito armado, devido à experiência de 92, mas não deu guerra e os resultados foram o que foram. Em 2012, senti também ter havido uma certa redução do entusiasmo dos eleitores. Este ano, sendo as primeiras eleições em que não participa o Presidente José Eduardo dos Santos, Angola está claramente numa fase de transição, ainda que o candidato do MPLA venha do ciclo de José Eduardo dos Santos, que criou vários ciclos de interesse, devido aos longos anos que se manteve no poder. Acho que muitos destes ciclos ou grupos de interesse sentem o status quo desafiado, porque a mudança de ciclos gera sempre algum tipo de tensão e há claramente uma preocupação de como esta transição – tanto ao nível do MPLA como da própria Presidência da República - vai ser gerida, considerando que as eleições podem  ser ganhas por qualquer um dos partidos concorrentes.

Estes ciclos de interesses são positivos para o país?

Eu creio que os ciclos de interesses acabam sempre se instalando. Agora, resta saber à volta de que interesses, pois há os positivos e os negativos. Então, fica díficil dizer se são bons ou maus, mas o que é verdade é que há ciclos de interesses, pessoas que gostariam de aproveitar o facto de que haverá um novo presidente para o seus interesses ou criar novos interesses e novas ideias... Acredito que é muito normal em política haver grupos de interesses.

E terão sido os ciclos de interesse o motivo principal de o Presidente José Eduardo dos Santos  manter-se no poder ao longo de quase 38 anos?

A retórica oficial é de que o Presidente José Eduardo dos Santos teve que se manter esses anos todos no poder por razões históricas. Sabe-se que José Eduardo dos Santos subiu no poder em 1979 e até 1992 nós éramos um sistema de “Partido Único”. Entretanto, após a abertura para o multipartidarismo e as eleições de 1992, obviamente entrámos num processo de abertura democrática, mas não conseguimos que o processo caminhasse com a normalidade que se desejava. Foi interrompido o ciclo que mal tinha começado. Assim sendo, esse longo tempo à frente das instituições, é inevitável que tenha gerado ciclos de interesses, embora sempre tenha existido pessoas a favor de uma mudança e outras que sempre defenderam a continuidade da liderança política.

Os debates, a presença a nível das redes socias para falar de assuntos que depois são retomados de forma explícita ou implícita pelos políticos, quer queiramos quer não, são ganhos muito protagonizados pela Sociedade Civil.

Qual é a avaliação que faz da participação da Sociedade Civil no processo eleitoral em curso?

A ideia de uma Sociedade Civil  aqui depende muito do conceito que queremos dar a esse termo. Acho que o modo de operação das organizações da Sociedade Civil foi mudando muito ao longo dos últimos tempos. As pessoas foram ganhando mais maturidade, e foram sabendo contornar as dificuldades. Eu sou daqueles que pensam que muito pelo contrário do que se diz, a Sociedade Civil tem estado muito presente nestes processos e através de diferentes formas. Nós estamos habituados a ver as ONGs  como o único representante da Sociedade Civil, todavia, “Sociedade Civil” tem conceito mais amplo. Os debates, a presença a nível das redes socias para falar de assuntos que depois são retomados de forma explícita ou implícita pelos políticos, quer queiramos quer não, são ganhos muito protagonizados pela Sociedade Civil. Nós, na verdade, tendemos a pensar no nosso processo eleitoral contando a partir do momento em que foram anunciadas as eleições, mas, antes disso, uma série de movimentos e dinâmicas nas ruas, desde os “revús” e outros processos, espelharam o papel da Sociedade Civil no processo eleitoral. Acho que houve uma grande contribuição de autores que consideraria não estatais, muitos deles pertencentes a Sociedade Civil, que actuaram numa lógica diferente daquela a que estávamos habituados a ver,  se calhar por causa da guerra, que limitou a actuação das ONGs a acções de  caridade e serviços comunitários.

Esse processo todo a que se referiu terá forçado alguma mudança de atitude dos políticos?

Sim. Há uma maior cobrança tanto da Sociedade Civil quanto dos políticos, e isto contribuiu para um certo crescimento da qualidade como os políticos tentam defender os seus argumentos  e se calhar aumenta os níveis de escrutínios sobre muitas ideias discursos políticos que são apresentados na praça pública.

A comunicação social pública pecou muito  durante este processo. Não podemos pensar que as eleições são só o evento do dia 23 de Agosto. Ou seja, muita imagem de partidos e de políticos foi sendo construída ao longo de muitos anos pela comunicação social pública.

Os órgãos de comunicação social, em particular públicos, são acusados de favorecer determinados autores políticos. Tem o mesmo entendimento?

Sem dúvida. A comunicação social pública pecou muito  durante este processo. Não podemos pensar que as eleições são só o evento do dia 23 de Agosto. Ou seja, muita imagem de partidos e de políticos foi sendo construída ao longo de muitos anos pela comunicação social pública. Portanto,  ainda que haja uma ligeira melhoria, ou mudança  de comportamento dos Medias,  muita imagem positiva ou negativa sobre determinado autor já foi construída no passado. É de lamentar este tipo de comportamento, sobretudo quando estamos a falar de uma empresa que é pública e que tem o dever de informar com objectividade e imparcialidade.

Pelo que esta a afirmação, o posicionamento dos órgãos de comunicação públicos resulta de uma oriental superior, portanto intencional,  ou é inocente?

É muito díficil eu fazer esse tipo de juízo, mas posso fazer uma análise dos efeitos que isso acabou por provocar. A imagem que nós temos sobre a Socidade Civil, sobre as pessoas que têm assumido publicamente posicionamentos críticos, foi construída graças àquilo que a imprensa nos deu para observar. Portanto, era importante não descurar o peso que a imprensa tem. Dois exemplos: quando Ambrósio Lukoke entra em rota de colisão com o seu partido, não teve o mesmo tratamento a nível dos meios de comunicação públicos, mas dá-se destaque a notícia que aponta que mais de 300 pessoas anônimas sairam de um partido da oposição para ingrassarem no  MPLA. Eu acho que uma figura como Ambrósio Lukoke, pela  sua militância, quando decide afastar-se do posicionamento do seu partido, o normal é que a imprensa corra atrás para tentar ver e descobrir mais factos. É esta atitude dos meios de comunicação que acaba moldando a opinião pública.

Considerando que nem todos os angolanos têm acesso aos meios tradicionais de informação, acredita que os partidos estão a fazer um bom trabalho ou devem desafiar-se mais?

Do ponto de vista do esforço de ir à rua e de estar com as pessoas, eu considero que os partidos, comparando com alguns anos atrás, fizeram um  grande esforço. Nós vimos os líderes dos vários partidos políticos, desde o partido da situação aos da oposição, desdobraram-se, correndo a várias províncias para mobilizarem as pessoas. Deste ponto de vista, sinto que há um grande esforço. O que eu sempre lamentei são qualitativamente as mensagens. É muito bonito os políticos dizerem o que vão fazer, mas  é preciso dizer quando,  até porque uma legislatura tem um tempo limitado e vivemos um momento de menos recursos financeiros.

Mas as massas fazem tipo de análise das promessas dos partidos políticos?

Sei que não.  E há um ditado que que diz que tudo vale para ganhar as eleições, mas eu sou um daqueles que pensam, nas eleições, os políticos pedem a nossa autorização e é justo que como cidadãos evoluíssemos ao ponto de exigirmos o cumprimento das promessas feitas.

Para isso é necessária a intervenção da socidade civil e de grupos especializados e organizados, certo?

Sim. Começa a haver uma massa crítica de pessoas  que já querem ir para além do que se promete fazer: querem saber quanto, como, e procuram formas de ser mais visíveis na mídia. Há um crescimento do ponto-de-vista de maturidade da própiria sociedade, mas o problema é que podem ter maior ou menor visibilidade. Há pessoas a quem não interessa todo debate à volta da macroeconomia, mas quer saber  se na torneira vai começar a jorrar água com regularidade, se a energia eléctrica em casa vai funcionar com a mesma regularidade que nos chegam as facturas de electricidade, se nos hospitais vão encontrar os medicamentos, etc.

Relativamente à observação, vê-se também internamente as organizações da sociedade civil com intenção de fazerem escrutínio às própias eleições. Isto é positivo?

É altamente positivo e é um indicador que também a Sociedade Civil melhorou. Já havia organizações da Sociedade Civil ou observatório eleitoral, que se dividem em dois: as de longo prazo, que olham para aspectos mais gerais,  e a observação de curto prazo, que vai estar nos próximos dias nas assembleias de voto para ver o que ocorreu. Este é um sinal de maturidade da nossa sociedade. Por exemplo, a sociedade manifesta a sua opinião em relação ao comportamento da imprensa, em relação à utilização dos meios do Estado na pré-campanha, etc. Ou seja, há várias preocupações que não eram vistas como anormais em 1992 ou noutros anos, mas sinto que há um número crescente de cidadãos que já não vêem isto como normal...

.... que um pastor se engaje activamente na vida política, como membro de uma organização da Sociadde Civil, como um dirigente desportivo, não há nenhum mal, porém, o que não pode fazer é instrumentalizar a sua instituição...

Qual é a sua opinião sobre a relação, às vezes pouco saúdes para o bem comum, entre a Sociedade Civil e os partidos políticos. É aceitável a utilização das instituições como igrejas para fins políticos-partidários?

Esta é uma questão muito interessante que devia ser bastante discutida. Se por um lado nós mobilizamos e queremos que todos os cidadãos sejam activos na vida política, e se possível na vida partidária, por outro lado não é aceitável a manipulação das instituições com fins políticos ou partidários. Ou seja, que um pastor se engaje activamente na vida política, como membro de uma organização da Sociadde Civil, como um dirigente desportivo, não há nenhum mal, porém, o que não pode fazer é instrumentalizar a sua instituição, como fez um um líder religioso, defendendo que “vermelho” da bandeira de um partido político é o sangue Jesus Cristo. Isso é, claramente, uma manipulação que faz aos crentes e não é todo aceitável, porque exclui aqueles que, sendo da mesma instituição e não se revêem num determinado partido, dedicem afastar-se.

Que avaliação faz das propostas dos partidos políticos?

É um exagero tentar passar a imagem de que na oposição todos os partidos estão a fazer propostas descabidas. Eu tive a oportunidade de ler atentamente os programas que estavam a me chegar em mãos, e o último foi o da CASA-CE, e vi que tinha medidas completamente exequíveis. Todos os partidos,  inclusive o MPLA, têm medidas das quais eu, como cidadão Sérgio Calundungo, posso ter alguns questionamentos. Entretanto, dizer que todas as propostas são descabidas e realistas não é correcto, pois não é  verdade. Portanto, há uma série de propostas que são passíveis de discussão e de questionamento, mas eu acredito que em eleições é isso mesmo que acontece, por isso que somos diferentes num universo único que é Angola. Sempre defendi que o interessante talvez não seja crescer mais para distribuir melhor, siim redistribuir mais e melhor. Preferia que o país não tivesse crescido tanto, mas sim que tivesse uma boa base de redistribuição, razão pela qual seríamos mais resilientes antes do choque provocado pela baixa do preço do  barril do petróleo.

 

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Sebastião Vemba

Fundador e Director Editorial do ONgoma News

Jornalista, apaixonado pela escrita, fotografia e artes visuais. Tem interesses nas novas medias, formação e desenvolvimento comunitário.

Sérgio Calundungo, coordenador do Obsersatório Político e Social de Angola (OPSA), considera que Angola ainda está em fase inicial da criação de uma cultura de eleições, sendo que, se vive no país, nos útimos tempos, uma certa crise democracia, motivada, em grande medida, pelo desfecho das eleições de 1992. Para o entrevistado do ONgoma News, a democratização do país e normalização dos processos eleitores foi interrompida mal tinha começado.  “Tivemos eleições em 92, em que o nível de participação cívica foi muito alto.  Lembro-me de ter sido um momento de bastante entusiasmo, o país abria-se ao multipartidarismo, mas depois, desde 2008, e à medida que o tempo foi passando, desgastou-se muito a imagem dos políticos e da política”, afirmou.

 

Entrou-se, há já algumas semanas, efectivamente no período de campanha eleitoral,  e tem-se assistido à muita actividade política, embora de um tempo a esta parte tenha sido possível acompanhar muito dinamismo dos partidos em época de pré-campanha. Também teve essa impressão?

Sim. Acho que a nossa pré-campanha muito se confundia com uma campanha. Foi muito activa, com muitos dos actores políticos na rua, e os pronunciamentos dos mesmos eram mais como se estivessem em fase de campanha, isso se fizermos uma comparação com os anos anteriores.

E isso é bom ou mau?

Creio que seja bom, porque, se reparar, em Angola, uma vez dada a autorização aos políticos parea que nos representem no parlamento, ou governem em nosso nome, deixa de haver essa ligação entre os governantes e a sociedade. Várias localidades do país viveram uma espécie de efervescência política, porque os políticos foram ao encontro da população falar das suas ideias e objectivos para com o Angola. Acredito que tudo isso seja positivo.

Este ano, sendo as primeiras eleições em que não participa o Presidente José Eduardo dos Santos, Angola está claramente numa fase de transição, ainda que o candidato do MPLA venha do ciclo de José Eduardo dos Santos...
"Eu creio que os ciclos de interesses acabam sempre se instalando. Agora, resta saber à volta de que interesses, pois há os positivos e os negativos", afirmou.

E quais as perspectivas de mudança e alteração do status quo político, isso em termos de concretização das promessas feitas pelos políticos?

Nos últimos tempos vivemos uma certa crise democracia e ainda estamos a criar a cultura de eleições. Tivemos eleições em 92, em que o nível de participação cívica foi muito alto.  Lembro-me de ter sido um momento de bastante entusiasmo, o país abria-se ao multipartidarismo, mas depois, desde 2008, e à medida que o tempo foi passando, desgastou-se muito a imagem dos políticos e da política. Eu acho que as eleições em 2008 aconteceram muito com uma forte apreensão de retoma ao conflito armado, devido à experiência de 92, mas não deu guerra e os resultados foram o que foram. Em 2012, senti também ter havido uma certa redução do entusiasmo dos eleitores. Este ano, sendo as primeiras eleições em que não participa o Presidente José Eduardo dos Santos, Angola está claramente numa fase de transição, ainda que o candidato do MPLA venha do ciclo de José Eduardo dos Santos, que criou vários ciclos de interesse, devido aos longos anos que se manteve no poder. Acho que muitos destes ciclos ou grupos de interesse sentem o status quo desafiado, porque a mudança de ciclos gera sempre algum tipo de tensão e há claramente uma preocupação de como esta transição – tanto ao nível do MPLA como da própria Presidência da República - vai ser gerida, considerando que as eleições podem  ser ganhas por qualquer um dos partidos concorrentes.

Estes ciclos de interesses são positivos para o país?

Eu creio que os ciclos de interesses acabam sempre se instalando. Agora, resta saber à volta de que interesses, pois há os positivos e os negativos. Então, fica díficil dizer se são bons ou maus, mas o que é verdade é que há ciclos de interesses, pessoas que gostariam de aproveitar o facto de que haverá um novo presidente para o seus interesses ou criar novos interesses e novas ideias... Acredito que é muito normal em política haver grupos de interesses.

E terão sido os ciclos de interesse o motivo principal de o Presidente José Eduardo dos Santos  manter-se no poder ao longo de quase 38 anos?

A retórica oficial é de que o Presidente José Eduardo dos Santos teve que se manter esses anos todos no poder por razões históricas. Sabe-se que José Eduardo dos Santos subiu no poder em 1979 e até 1992 nós éramos um sistema de “Partido Único”. Entretanto, após a abertura para o multipartidarismo e as eleições de 1992, obviamente entrámos num processo de abertura democrática, mas não conseguimos que o processo caminhasse com a normalidade que se desejava. Foi interrompido o ciclo que mal tinha começado. Assim sendo, esse longo tempo à frente das instituições, é inevitável que tenha gerado ciclos de interesses, embora sempre tenha existido pessoas a favor de uma mudança e outras que sempre defenderam a continuidade da liderança política.

Os debates, a presença a nível das redes socias para falar de assuntos que depois são retomados de forma explícita ou implícita pelos políticos, quer queiramos quer não, são ganhos muito protagonizados pela Sociedade Civil.

Qual é a avaliação que faz da participação da Sociedade Civil no processo eleitoral em curso?

A ideia de uma Sociedade Civil  aqui depende muito do conceito que queremos dar a esse termo. Acho que o modo de operação das organizações da Sociedade Civil foi mudando muito ao longo dos últimos tempos. As pessoas foram ganhando mais maturidade, e foram sabendo contornar as dificuldades. Eu sou daqueles que pensam que muito pelo contrário do que se diz, a Sociedade Civil tem estado muito presente nestes processos e através de diferentes formas. Nós estamos habituados a ver as ONGs  como o único representante da Sociedade Civil, todavia, “Sociedade Civil” tem conceito mais amplo. Os debates, a presença a nível das redes socias para falar de assuntos que depois são retomados de forma explícita ou implícita pelos políticos, quer queiramos quer não, são ganhos muito protagonizados pela Sociedade Civil. Nós, na verdade, tendemos a pensar no nosso processo eleitoral contando a partir do momento em que foram anunciadas as eleições, mas, antes disso, uma série de movimentos e dinâmicas nas ruas, desde os “revús” e outros processos, espelharam o papel da Sociedade Civil no processo eleitoral. Acho que houve uma grande contribuição de autores que consideraria não estatais, muitos deles pertencentes a Sociedade Civil, que actuaram numa lógica diferente daquela a que estávamos habituados a ver,  se calhar por causa da guerra, que limitou a actuação das ONGs a acções de  caridade e serviços comunitários.

Esse processo todo a que se referiu terá forçado alguma mudança de atitude dos políticos?

Sim. Há uma maior cobrança tanto da Sociedade Civil quanto dos políticos, e isto contribuiu para um certo crescimento da qualidade como os políticos tentam defender os seus argumentos  e se calhar aumenta os níveis de escrutínios sobre muitas ideias discursos políticos que são apresentados na praça pública.

A comunicação social pública pecou muito  durante este processo. Não podemos pensar que as eleições são só o evento do dia 23 de Agosto. Ou seja, muita imagem de partidos e de políticos foi sendo construída ao longo de muitos anos pela comunicação social pública.

Os órgãos de comunicação social, em particular públicos, são acusados de favorecer determinados autores políticos. Tem o mesmo entendimento?

Sem dúvida. A comunicação social pública pecou muito  durante este processo. Não podemos pensar que as eleições são só o evento do dia 23 de Agosto. Ou seja, muita imagem de partidos e de políticos foi sendo construída ao longo de muitos anos pela comunicação social pública. Portanto,  ainda que haja uma ligeira melhoria, ou mudança  de comportamento dos Medias,  muita imagem positiva ou negativa sobre determinado autor já foi construída no passado. É de lamentar este tipo de comportamento, sobretudo quando estamos a falar de uma empresa que é pública e que tem o dever de informar com objectividade e imparcialidade.

Pelo que esta a afirmação, o posicionamento dos órgãos de comunicação públicos resulta de uma oriental superior, portanto intencional,  ou é inocente?

É muito díficil eu fazer esse tipo de juízo, mas posso fazer uma análise dos efeitos que isso acabou por provocar. A imagem que nós temos sobre a Socidade Civil, sobre as pessoas que têm assumido publicamente posicionamentos críticos, foi construída graças àquilo que a imprensa nos deu para observar. Portanto, era importante não descurar o peso que a imprensa tem. Dois exemplos: quando Ambrósio Lukoke entra em rota de colisão com o seu partido, não teve o mesmo tratamento a nível dos meios de comunicação públicos, mas dá-se destaque a notícia que aponta que mais de 300 pessoas anônimas sairam de um partido da oposição para ingrassarem no  MPLA. Eu acho que uma figura como Ambrósio Lukoke, pela  sua militância, quando decide afastar-se do posicionamento do seu partido, o normal é que a imprensa corra atrás para tentar ver e descobrir mais factos. É esta atitude dos meios de comunicação que acaba moldando a opinião pública.

Considerando que nem todos os angolanos têm acesso aos meios tradicionais de informação, acredita que os partidos estão a fazer um bom trabalho ou devem desafiar-se mais?

Do ponto de vista do esforço de ir à rua e de estar com as pessoas, eu considero que os partidos, comparando com alguns anos atrás, fizeram um  grande esforço. Nós vimos os líderes dos vários partidos políticos, desde o partido da situação aos da oposição, desdobraram-se, correndo a várias províncias para mobilizarem as pessoas. Deste ponto de vista, sinto que há um grande esforço. O que eu sempre lamentei são qualitativamente as mensagens. É muito bonito os políticos dizerem o que vão fazer, mas  é preciso dizer quando,  até porque uma legislatura tem um tempo limitado e vivemos um momento de menos recursos financeiros.

Mas as massas fazem tipo de análise das promessas dos partidos políticos?

Sei que não.  E há um ditado que que diz que tudo vale para ganhar as eleições, mas eu sou um daqueles que pensam, nas eleições, os políticos pedem a nossa autorização e é justo que como cidadãos evoluíssemos ao ponto de exigirmos o cumprimento das promessas feitas.

Para isso é necessária a intervenção da socidade civil e de grupos especializados e organizados, certo?

Sim. Começa a haver uma massa crítica de pessoas  que já querem ir para além do que se promete fazer: querem saber quanto, como, e procuram formas de ser mais visíveis na mídia. Há um crescimento do ponto-de-vista de maturidade da própiria sociedade, mas o problema é que podem ter maior ou menor visibilidade. Há pessoas a quem não interessa todo debate à volta da macroeconomia, mas quer saber  se na torneira vai começar a jorrar água com regularidade, se a energia eléctrica em casa vai funcionar com a mesma regularidade que nos chegam as facturas de electricidade, se nos hospitais vão encontrar os medicamentos, etc.

Relativamente à observação, vê-se também internamente as organizações da sociedade civil com intenção de fazerem escrutínio às própias eleições. Isto é positivo?

É altamente positivo e é um indicador que também a Sociedade Civil melhorou. Já havia organizações da Sociedade Civil ou observatório eleitoral, que se dividem em dois: as de longo prazo, que olham para aspectos mais gerais,  e a observação de curto prazo, que vai estar nos próximos dias nas assembleias de voto para ver o que ocorreu. Este é um sinal de maturidade da nossa sociedade. Por exemplo, a sociedade manifesta a sua opinião em relação ao comportamento da imprensa, em relação à utilização dos meios do Estado na pré-campanha, etc. Ou seja, há várias preocupações que não eram vistas como anormais em 1992 ou noutros anos, mas sinto que há um número crescente de cidadãos que já não vêem isto como normal...

.... que um pastor se engaje activamente na vida política, como membro de uma organização da Sociadde Civil, como um dirigente desportivo, não há nenhum mal, porém, o que não pode fazer é instrumentalizar a sua instituição...

Qual é a sua opinião sobre a relação, às vezes pouco saúdes para o bem comum, entre a Sociedade Civil e os partidos políticos. É aceitável a utilização das instituições como igrejas para fins políticos-partidários?

Esta é uma questão muito interessante que devia ser bastante discutida. Se por um lado nós mobilizamos e queremos que todos os cidadãos sejam activos na vida política, e se possível na vida partidária, por outro lado não é aceitável a manipulação das instituições com fins políticos ou partidários. Ou seja, que um pastor se engaje activamente na vida política, como membro de uma organização da Sociadde Civil, como um dirigente desportivo, não há nenhum mal, porém, o que não pode fazer é instrumentalizar a sua instituição, como fez um um líder religioso, defendendo que “vermelho” da bandeira de um partido político é o sangue Jesus Cristo. Isso é, claramente, uma manipulação que faz aos crentes e não é todo aceitável, porque exclui aqueles que, sendo da mesma instituição e não se revêem num determinado partido, dedicem afastar-se.

Que avaliação faz das propostas dos partidos políticos?

É um exagero tentar passar a imagem de que na oposição todos os partidos estão a fazer propostas descabidas. Eu tive a oportunidade de ler atentamente os programas que estavam a me chegar em mãos, e o último foi o da CASA-CE, e vi que tinha medidas completamente exequíveis. Todos os partidos,  inclusive o MPLA, têm medidas das quais eu, como cidadão Sérgio Calundungo, posso ter alguns questionamentos. Entretanto, dizer que todas as propostas são descabidas e realistas não é correcto, pois não é  verdade. Portanto, há uma série de propostas que são passíveis de discussão e de questionamento, mas eu acredito que em eleições é isso mesmo que acontece, por isso que somos diferentes num universo único que é Angola. Sempre defendi que o interessante talvez não seja crescer mais para distribuir melhor, siim redistribuir mais e melhor. Preferia que o país não tivesse crescido tanto, mas sim que tivesse uma boa base de redistribuição, razão pela qual seríamos mais resilientes antes do choque provocado pela baixa do preço do  barril do petróleo.

 

Sebastião Vemba

Fundador e Director Editorial do ONgoma News

Jornalista, apaixonado pela escrita, fotografia e artes visuais. Tem interesses nas novas medias, formação e desenvolvimento comunitário.

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