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“Nós temos que munir os nossos artistas angolanos de mais pesquisa”, afirma produtor de arte Dominick Tanner

“Nós temos que munir os nossos artistas angolanos de mais pesquisa”, afirma produtor de arte Dominick Tanner
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Andrade Lino

O galerista e produtor de arte Dominick Tanner afirmou que os artistas angolanos devem ser munidos de mais pesquisa, tendo realçado que isso passa por dar-lhes formação em línguas, a título de exemplo.

O também director-geral do Espaço Luanda Arte (ELA), que falou por ocasião da apresentação, em conferência de imprensa, da 2ª Edição da “Feira de Arte AKAA”, decorrida no dia 1 deste mês, acrescentou que “se o artista não cresce, estamos a pensar muito pequeno, a curto prazo”.

“Porque a TAAG não dá uns valores menores a nível de bilhetes de avião para os artistas poderem viajar, sabendo que a arte, tipicamente, não tem quase nada, mas gasta muito?”, questionou-se, acreditando que “se se concederem passaportes diplomáticos aos artistas e se lhes for dada a possibilidade de viajarem de forma subsidiada para os centros internacionais de arte, indubitavelmente, voltarão mais fortes”.

O responsável citou ainda que “hoje em dia o perfil de um artista não se resume a uma pessoa que fica todo tempo fechada no seu atelier a criar”, tendo defendido que os tempos actuais exigem que ele seja um profissional multifacetado, que falas línguas, que tem passaporte, que viaja e procura inspiração.

“Acho que temos mas é demasiados artistas que acham que isso é uma profissão, porque lá por se saber desenhar não implica ser-se artista. São mundos diferentes, pois, um artista, mais do que guiado pela mão ou por um instrumento, lápis ou pincel, é guiado pelo seu coração e pela sua alma”

“Por exemplo, em Cuba, no tempo do presidente Fidel de Castro, a arte era muito fechada, mas os artistas plásticos cubanos tinham um visto especial que lhes permitia viajar pelo mundo inteiro. Isso é um pouco exclusivo, porém há aqui ilações a tirar”, disse, em entrevista ao ONgoma, referindo, posteriormente, que para já há poucas galerias, poucos espaços onde se pode mostrar e trabalhar a arte e, consequentemente, poucos curadores.

Nesse diapasão, Dominick Maia-Tanner reparou a necessidade de haver mais curadores e formadores de artes. “Acho que temos mas é demasiados artistas que acham que isso é uma profissão, porque lá por se saber desenhar não implica ser-se artista. São mundos diferentes, pois, um artista, mais do que guiado pela mão ou por um instrumento, lápis ou pincel, é guiado pelo seu coração e pela sua alma, e infelizmente a história mostra-nos que maior parte dos artistas bem-sucedidos e que são lembrados morreram pobres, ou eram esquizofrénicos, ou padeciam de algum mal. Isto mostra ainda que, de facto, a arte é um sofrimento, e que só se calhar no final da carreira de um artista plástico é que este começa a ver o resultado do seu trabalho, esforço e sacrifício, daí referir que os artistas não devem pensar apenas em vendas e exposições, mas naquilo que há nos bastidores: pesquisa, ir buscar uma narrativa e uma profundidade de trabalho, e não copy&paste, que é uma tendência robusta”, argumentou.   

É preciso sair da zona de conforto

“Não vamos poder estar em todas feiras nem trabalhar com todos os artistas, mas aquilo que podemos fazer, temos que fazê-lo bem, e uma coisa na qual já pensamos é criar residência para artistas estrangeiros”

Para Dominick Maia Tanner, há uma grande necessidade de se levar os artistas para fora, principalmente os autodidactas. “Não tenho nada contra os autodidactas, mas defendo que é preciso muni-los de outros conhecimentos para que possam crescer, ou então levar professores do Kinshasa ao ISARTES pode ser uma iniciativa, porque temos que acelerar isso, sabendo que essa geração é muito criativa, tem muito para pintar, mas não sabe como”, afirmou.

Falando em particular do seu trabalho de galerista e produtor de artista, admitiu que é preciso sair da sua zona de conforto e reaprender muitas coisas.

“Não vamos poder estar em todas feiras nem trabalhar com todos os artistas, mas aquilo que podemos fazer, temos que fazê-lo bem, e uma coisa na qual já pensamos é criar residência para artistas estrangeiros”, ambicionou, crendo que “apesar dos problemas de espaço, infra-estruturas e da própria crise económica”, pedindo apoio a uma entidade privada, mostrando um plano e uma visão estratégica de 5 a 10 anos, conseguem-se parcerias.

“É uma questão de ser persistente e ir batendo as portas. Não é pedir dinheiro, é pedir cartas. Nós gostaríamos de ter o apoio do Ministério da Cultura porque sabemos que isso abrirá portas para outros apoios. Enfim, temos é que mexer-nos, tem ainda que haver mais colaboração e diálogo entre galerias e trocas de apoios com outras instituições, e acho que se nós todos caminharmos para frente, ajudamo-nos uns aos outros. Todavia, o ELA, particularmente, não tem que estar atrás de apoios o tempo todo, mas a fazer o seu trabalho, que é ajudar a fomentar a arte, e é um trabalho que já vem de trás como produtores, porque se falamos com os artistas, no sentido de mostrarem o melhor trabalho naquela residência ou exposição, temos também que exigir isso de nós próprios”, esclareceu o também produtor.   

ELA leva artistas angolanos a Paris

De 10 a 12 deste mês, acontece em Paris, França, a “Feira de Arte AKAA”, onde o Espaço Luanda Arte será representado pelos angolanos António Ole, Kapela, Pedro Pires e Suekí. Dominick Maia Tanner explicou que o processo de selecção dos artistas é natural. Ou seja, tudo parte dos trabalhos que desenvolveu com estes artistas, sendo que através do quais ficou a conhecer a sua arte, o seu ego, o seu talento, e ao mesmo tempo o seu feitio.

“Para mim, é muito importante trabalhar com pessoas de quem eu quero bem e quem me quer bem, primeiro, porque eu quero artistas que percebam que estamos juntos num projecto para acrescentar valor. Além disso, quero que o artista seja um representado por mim, mas também estou aberto a outros que não o sejam representados por mim, uma vez que não é só o Kapela ou o Pedro Pires que levo às feiras. Eu levo artistas como o Binelde, António Ole e Suekí, que eu não represento. Então, para mim, é muito importante trabalhar com artistas que percebam que aquilo que nós vamos fazer é pôr a imagem de Angola no auge”, partilhou.

“E lanço um desafio a artistas que eventualmente tenham uma obra que ainda está a emergir, que pensem, para além de exposições, estar nessas feiras, que acredito ser uma meta imprescindível, pois, acima de tudo, é um trabalho de diplomacia que estamos a fazer...”

Para a fonte, é ainda importante levar fisicamente o artista aos eventos e não apenas através do seu trabalho. “Por exemplo, levámos o Kapela, em Fevereiro, para Cape Town; o Binelde e Pedro Pires para Paris em Março; o António Ole esteve em Joanesburgo, recentemente, e agora o Pedro Pires estará connosco em Paris, o que para nós é de grande valor ele assim também poder contar a sua história, já que eu não quero ser o centro das atenções. O foco para mim é a arte e o artista. E lanço um desafio a artistas que eventualmente tenham uma obra que ainda está a emergir, que pensem, para além de exposições, estar nessas feiras, que acredito ser uma meta imprescindível, pois, acima de tudo, é um trabalho de diplomacia que estamos a fazer, em que a arte angolana está a ser representada numa feira africana, mas isso também é outra coisa que nos preocupa muito, que é poder entrar numa feira que não seja só africana. Por um lado, obviamente, é bom, porque serve de um comboio que nos permite ter a participação de artistas nacionais noutros certames, porém a ideia é levar a arte para qualquer dimensão geográfica”, defendeu, finalmente.

A primeira e única feira de arte em França dedicada à arte contemporânea e ao design do continente africano, a “Feira de Arte AKAA” ou “Also Known As Africa”, descobriu instantaneamente o seu público e registou no ano passado 15.000 visitas entre coleccionadores e amantes de arte.

De acordo com a nota partilhada com a imprensa, nove países são apresentados nesta edição, dos quais cinco são do continente africano, nomeadamente, além de Angola, Costa do Marfim, Senegal, Tunísia e Uganda, e mais quatro países europeus, sendo estes Suíça, Bélgica, Espanha e Itália.

 

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Andrade Lino

Jornalista

Estudante de Língua Portuguesa e Comunicação, amante de artes visuais, música e poesia.

O galerista e produtor de arte Dominick Tanner afirmou que os artistas angolanos devem ser munidos de mais pesquisa, tendo realçado que isso passa por dar-lhes formação em línguas, a título de exemplo.

O também director-geral do Espaço Luanda Arte (ELA), que falou por ocasião da apresentação, em conferência de imprensa, da 2ª Edição da “Feira de Arte AKAA”, decorrida no dia 1 deste mês, acrescentou que “se o artista não cresce, estamos a pensar muito pequeno, a curto prazo”.

“Porque a TAAG não dá uns valores menores a nível de bilhetes de avião para os artistas poderem viajar, sabendo que a arte, tipicamente, não tem quase nada, mas gasta muito?”, questionou-se, acreditando que “se se concederem passaportes diplomáticos aos artistas e se lhes for dada a possibilidade de viajarem de forma subsidiada para os centros internacionais de arte, indubitavelmente, voltarão mais fortes”.

O responsável citou ainda que “hoje em dia o perfil de um artista não se resume a uma pessoa que fica todo tempo fechada no seu atelier a criar”, tendo defendido que os tempos actuais exigem que ele seja um profissional multifacetado, que falas línguas, que tem passaporte, que viaja e procura inspiração.

“Acho que temos mas é demasiados artistas que acham que isso é uma profissão, porque lá por se saber desenhar não implica ser-se artista. São mundos diferentes, pois, um artista, mais do que guiado pela mão ou por um instrumento, lápis ou pincel, é guiado pelo seu coração e pela sua alma”

“Por exemplo, em Cuba, no tempo do presidente Fidel de Castro, a arte era muito fechada, mas os artistas plásticos cubanos tinham um visto especial que lhes permitia viajar pelo mundo inteiro. Isso é um pouco exclusivo, porém há aqui ilações a tirar”, disse, em entrevista ao ONgoma, referindo, posteriormente, que para já há poucas galerias, poucos espaços onde se pode mostrar e trabalhar a arte e, consequentemente, poucos curadores.

Nesse diapasão, Dominick Maia-Tanner reparou a necessidade de haver mais curadores e formadores de artes. “Acho que temos mas é demasiados artistas que acham que isso é uma profissão, porque lá por se saber desenhar não implica ser-se artista. São mundos diferentes, pois, um artista, mais do que guiado pela mão ou por um instrumento, lápis ou pincel, é guiado pelo seu coração e pela sua alma, e infelizmente a história mostra-nos que maior parte dos artistas bem-sucedidos e que são lembrados morreram pobres, ou eram esquizofrénicos, ou padeciam de algum mal. Isto mostra ainda que, de facto, a arte é um sofrimento, e que só se calhar no final da carreira de um artista plástico é que este começa a ver o resultado do seu trabalho, esforço e sacrifício, daí referir que os artistas não devem pensar apenas em vendas e exposições, mas naquilo que há nos bastidores: pesquisa, ir buscar uma narrativa e uma profundidade de trabalho, e não copy&paste, que é uma tendência robusta”, argumentou.   

É preciso sair da zona de conforto

“Não vamos poder estar em todas feiras nem trabalhar com todos os artistas, mas aquilo que podemos fazer, temos que fazê-lo bem, e uma coisa na qual já pensamos é criar residência para artistas estrangeiros”

Para Dominick Maia Tanner, há uma grande necessidade de se levar os artistas para fora, principalmente os autodidactas. “Não tenho nada contra os autodidactas, mas defendo que é preciso muni-los de outros conhecimentos para que possam crescer, ou então levar professores do Kinshasa ao ISARTES pode ser uma iniciativa, porque temos que acelerar isso, sabendo que essa geração é muito criativa, tem muito para pintar, mas não sabe como”, afirmou.

Falando em particular do seu trabalho de galerista e produtor de artista, admitiu que é preciso sair da sua zona de conforto e reaprender muitas coisas.

“Não vamos poder estar em todas feiras nem trabalhar com todos os artistas, mas aquilo que podemos fazer, temos que fazê-lo bem, e uma coisa na qual já pensamos é criar residência para artistas estrangeiros”, ambicionou, crendo que “apesar dos problemas de espaço, infra-estruturas e da própria crise económica”, pedindo apoio a uma entidade privada, mostrando um plano e uma visão estratégica de 5 a 10 anos, conseguem-se parcerias.

“É uma questão de ser persistente e ir batendo as portas. Não é pedir dinheiro, é pedir cartas. Nós gostaríamos de ter o apoio do Ministério da Cultura porque sabemos que isso abrirá portas para outros apoios. Enfim, temos é que mexer-nos, tem ainda que haver mais colaboração e diálogo entre galerias e trocas de apoios com outras instituições, e acho que se nós todos caminharmos para frente, ajudamo-nos uns aos outros. Todavia, o ELA, particularmente, não tem que estar atrás de apoios o tempo todo, mas a fazer o seu trabalho, que é ajudar a fomentar a arte, e é um trabalho que já vem de trás como produtores, porque se falamos com os artistas, no sentido de mostrarem o melhor trabalho naquela residência ou exposição, temos também que exigir isso de nós próprios”, esclareceu o também produtor.   

ELA leva artistas angolanos a Paris

De 10 a 12 deste mês, acontece em Paris, França, a “Feira de Arte AKAA”, onde o Espaço Luanda Arte será representado pelos angolanos António Ole, Kapela, Pedro Pires e Suekí. Dominick Maia Tanner explicou que o processo de selecção dos artistas é natural. Ou seja, tudo parte dos trabalhos que desenvolveu com estes artistas, sendo que através do quais ficou a conhecer a sua arte, o seu ego, o seu talento, e ao mesmo tempo o seu feitio.

“Para mim, é muito importante trabalhar com pessoas de quem eu quero bem e quem me quer bem, primeiro, porque eu quero artistas que percebam que estamos juntos num projecto para acrescentar valor. Além disso, quero que o artista seja um representado por mim, mas também estou aberto a outros que não o sejam representados por mim, uma vez que não é só o Kapela ou o Pedro Pires que levo às feiras. Eu levo artistas como o Binelde, António Ole e Suekí, que eu não represento. Então, para mim, é muito importante trabalhar com artistas que percebam que aquilo que nós vamos fazer é pôr a imagem de Angola no auge”, partilhou.

“E lanço um desafio a artistas que eventualmente tenham uma obra que ainda está a emergir, que pensem, para além de exposições, estar nessas feiras, que acredito ser uma meta imprescindível, pois, acima de tudo, é um trabalho de diplomacia que estamos a fazer...”

Para a fonte, é ainda importante levar fisicamente o artista aos eventos e não apenas através do seu trabalho. “Por exemplo, levámos o Kapela, em Fevereiro, para Cape Town; o Binelde e Pedro Pires para Paris em Março; o António Ole esteve em Joanesburgo, recentemente, e agora o Pedro Pires estará connosco em Paris, o que para nós é de grande valor ele assim também poder contar a sua história, já que eu não quero ser o centro das atenções. O foco para mim é a arte e o artista. E lanço um desafio a artistas que eventualmente tenham uma obra que ainda está a emergir, que pensem, para além de exposições, estar nessas feiras, que acredito ser uma meta imprescindível, pois, acima de tudo, é um trabalho de diplomacia que estamos a fazer, em que a arte angolana está a ser representada numa feira africana, mas isso também é outra coisa que nos preocupa muito, que é poder entrar numa feira que não seja só africana. Por um lado, obviamente, é bom, porque serve de um comboio que nos permite ter a participação de artistas nacionais noutros certames, porém a ideia é levar a arte para qualquer dimensão geográfica”, defendeu, finalmente.

A primeira e única feira de arte em França dedicada à arte contemporânea e ao design do continente africano, a “Feira de Arte AKAA” ou “Also Known As Africa”, descobriu instantaneamente o seu público e registou no ano passado 15.000 visitas entre coleccionadores e amantes de arte.

De acordo com a nota partilhada com a imprensa, nove países são apresentados nesta edição, dos quais cinco são do continente africano, nomeadamente, além de Angola, Costa do Marfim, Senegal, Tunísia e Uganda, e mais quatro países europeus, sendo estes Suíça, Bélgica, Espanha e Itália.

 

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