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“Nós ainda temos famílias que continuam a priorizar os homens, em detrimento das mulheres”

“Nós ainda temos famílias que continuam a priorizar os homens, em detrimento das mulheres”
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Andrade Lino

A socióloga angolana Tânia de Carvalho afirmou que “nós ainda temos famílias que continuam a priorizar os homens, em detrimento das mulheres”, tendo explicado que “essas famílias colocam os meninos na escola, mas as meninas não, pois essas têm que ajudar a mãe nos trabalhos de casa, e assim os rapazes crescem sabendo que não podem lavar pratos, acarretam água se faltar, mas a menina, em vez de sair para cumprir com o horário de trabalho e com a sua entrega ascender, muito cedo ainda tem que preparar a água para o marido tomar banho”.

Para ela, são esses hábitos culturais que atrasam a ascensão da mulher, sendo que, por exemplo, uma família com a possibilidade de colocar só um filho na universidade, obviamente vai deixar a menina e colocar o rapaz. Numa sala de aulas, em termos estatísticos, continuou, quem termina o ano lectivo é o rapaz, a menina abandona a escola por causa duma gravidez, “mas o rapaz que a engravidou continua a seguir o plano curricular normalmente”.

“São muitas formatações a nível cultural e até institucional que atrasam o desenvolvimento da mulher”, disse a especialista, que falou por ocasião do programa Goza TV desse mês, promovido pela plataforma de humor Goz´Aqui.

A também comentarista do programa de televisão “Política no Feminino”, questionada sobre a sua sensibilidade quanto à marcha do MPLA contra a corrupção, disse que não critica “uma acção que os militantes do MPLA ou UNITA fizeram para apoiar o seu líder”.

“Cada um faz o que quer. Estamos num país livre, então não vou repudiar quem acredita numa causa só por não me identificar com nenhuma delas ou estar neutra. Da mesma forma que tenho a liberdade de falar o que penso, os outros têm a liberdade de fazerem o que querem, por aquilo em que acreditam”, expressou Tânia de Carvalho.

Porém, no cômputo geral, reparou, não há resultados nesses mais de 24 meses de mandato do actual Governo. Podia existir se apostassem pelos melhores caminhos, frisou, tendo realçado que se todos estivermos comprometidos com o caminho a seguir para termos uma Angola realmente sustentável e desenvolvida, tudo bem. “Mas, agora, quando os problemas só se fizerem sentir numa classe, vamos continuar a perpetuar as assimetrias e o distanciamento entre as classes”, sublinhou.

Entrevistada por Tiago Costa, humorista e fundador do Goz´Aqui, a convidada afirmou não devemos continuar a depender de um único recurso, que é o petróleo. “Olhemos para a situação que estamos a viver, com a queda desse recurso, por conta do coronavírus. Temos um sector agrícola inexistente. Se calhar, pelo momento apertado, não é oportuno, mas era necessário. O sector dos transportes de Angola não funciona”, referiu, mas disse que acredita no turismo, se juntos pensarmos nele como uma alternativa para a resolução de muitos problemas.

Se nós fizermos investimento nas vias de comunicação (estradas), na segurança, e incutir nas pessoas a cultura do turismo interno, explicou, estaríamos a gerar outras receitas, encontrar formas de ter mais postos de trabalho e incluir famílias no desenvolvimento. A prática está muito distanciada do discurso, e é muito fácil nos mentirem porque temos muitas carências, precisou.

“A habitação é outro problema grave. O quê que significam as centralidades? Temos um problema titânico neste sector: jovens adultos, de 45 anos de idade, ainda vivem na casa dos pais. Está lá com a mulher e os filhos, e a filha também já namora. Então, se o Governo aparece a oferecer casa?...”, questionou-se, afirmando ser esse o nível de carência em que nos encontramos.

Tânia fez saber, entretanto, que o mais importante é estarmos comprometidos com a pátria. Porque, se assim o fizermos, o nosso plano será só um: desenvolver, priorizar a saúde e a educação. “Se acharmos que devemos todos ser felizes aqui, ter acesso aos fármacos, à educação de qualidade, poder visitar os parentes em qualquer parte do país, sem ter problemas da coluna, estaremos todos alinhados”, reforçou.

Autora do livro “Método de reeducação prisional”, a ainda funcionária do Ministério do Interior apreciou que “somos muito afectados com a situação de quem vai para uma cadeia. Nós não estamos isentos de tal. Várias razões nos levam para estar em conflito com a lei”, disse, tendo esclarecido que a obra é, então, uma chamada de atenção que procura passar às pessoas, dizendo que não sofre apenas quem está na cadeia, mas a família e os amigos também.

“Isso muda consideravelmente a vida de todo mundo ao redor, principalmente para nós que ainda temos a cultura de levar comida, fármacos e até água. Todos ficam afectados por causa duma pessoa que está em conflito com a lei”, entende a convidada.

Sobre o programa “Política no Feminino”, manifestou que fica muito feliz quando volta e meia recebem colegas para endossar o painel, continuando que gostaria que todas as mulheres que tivessem coragem e oportunidade de lá estar que o fizessem, porque pensa que “durante muito tempo não conseguimos ver a mulher angolana, a todos os níveis, no mesmo lugar que os homens”.

Assim, insistiu, qualquer mulher que vive cá, que conhece bem os nossos reais problemas, está em condições de estar ali. A condição para isso não é ter um diploma ou licenciatura, é entender a vida do país, é perceber a questão actual, preocupar-se com os problemas e identificar as causas, clareou, e declarou que o programa dá a possibilidade de proporcionar à mulher o lugar que não lhe foi dado, olhar para ela como um ser pensante e muito capaz de resolver problemas.

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Andrade Lino

Jornalista

Estudante de Língua Portuguesa e Comunicação, amante de artes visuais, música e poesia.

A socióloga angolana Tânia de Carvalho afirmou que “nós ainda temos famílias que continuam a priorizar os homens, em detrimento das mulheres”, tendo explicado que “essas famílias colocam os meninos na escola, mas as meninas não, pois essas têm que ajudar a mãe nos trabalhos de casa, e assim os rapazes crescem sabendo que não podem lavar pratos, acarretam água se faltar, mas a menina, em vez de sair para cumprir com o horário de trabalho e com a sua entrega ascender, muito cedo ainda tem que preparar a água para o marido tomar banho”.

Para ela, são esses hábitos culturais que atrasam a ascensão da mulher, sendo que, por exemplo, uma família com a possibilidade de colocar só um filho na universidade, obviamente vai deixar a menina e colocar o rapaz. Numa sala de aulas, em termos estatísticos, continuou, quem termina o ano lectivo é o rapaz, a menina abandona a escola por causa duma gravidez, “mas o rapaz que a engravidou continua a seguir o plano curricular normalmente”.

“São muitas formatações a nível cultural e até institucional que atrasam o desenvolvimento da mulher”, disse a especialista, que falou por ocasião do programa Goza TV desse mês, promovido pela plataforma de humor Goz´Aqui.

A também comentarista do programa de televisão “Política no Feminino”, questionada sobre a sua sensibilidade quanto à marcha do MPLA contra a corrupção, disse que não critica “uma acção que os militantes do MPLA ou UNITA fizeram para apoiar o seu líder”.

“Cada um faz o que quer. Estamos num país livre, então não vou repudiar quem acredita numa causa só por não me identificar com nenhuma delas ou estar neutra. Da mesma forma que tenho a liberdade de falar o que penso, os outros têm a liberdade de fazerem o que querem, por aquilo em que acreditam”, expressou Tânia de Carvalho.

Porém, no cômputo geral, reparou, não há resultados nesses mais de 24 meses de mandato do actual Governo. Podia existir se apostassem pelos melhores caminhos, frisou, tendo realçado que se todos estivermos comprometidos com o caminho a seguir para termos uma Angola realmente sustentável e desenvolvida, tudo bem. “Mas, agora, quando os problemas só se fizerem sentir numa classe, vamos continuar a perpetuar as assimetrias e o distanciamento entre as classes”, sublinhou.

Entrevistada por Tiago Costa, humorista e fundador do Goz´Aqui, a convidada afirmou não devemos continuar a depender de um único recurso, que é o petróleo. “Olhemos para a situação que estamos a viver, com a queda desse recurso, por conta do coronavírus. Temos um sector agrícola inexistente. Se calhar, pelo momento apertado, não é oportuno, mas era necessário. O sector dos transportes de Angola não funciona”, referiu, mas disse que acredita no turismo, se juntos pensarmos nele como uma alternativa para a resolução de muitos problemas.

Se nós fizermos investimento nas vias de comunicação (estradas), na segurança, e incutir nas pessoas a cultura do turismo interno, explicou, estaríamos a gerar outras receitas, encontrar formas de ter mais postos de trabalho e incluir famílias no desenvolvimento. A prática está muito distanciada do discurso, e é muito fácil nos mentirem porque temos muitas carências, precisou.

“A habitação é outro problema grave. O quê que significam as centralidades? Temos um problema titânico neste sector: jovens adultos, de 45 anos de idade, ainda vivem na casa dos pais. Está lá com a mulher e os filhos, e a filha também já namora. Então, se o Governo aparece a oferecer casa?...”, questionou-se, afirmando ser esse o nível de carência em que nos encontramos.

Tânia fez saber, entretanto, que o mais importante é estarmos comprometidos com a pátria. Porque, se assim o fizermos, o nosso plano será só um: desenvolver, priorizar a saúde e a educação. “Se acharmos que devemos todos ser felizes aqui, ter acesso aos fármacos, à educação de qualidade, poder visitar os parentes em qualquer parte do país, sem ter problemas da coluna, estaremos todos alinhados”, reforçou.

Autora do livro “Método de reeducação prisional”, a ainda funcionária do Ministério do Interior apreciou que “somos muito afectados com a situação de quem vai para uma cadeia. Nós não estamos isentos de tal. Várias razões nos levam para estar em conflito com a lei”, disse, tendo esclarecido que a obra é, então, uma chamada de atenção que procura passar às pessoas, dizendo que não sofre apenas quem está na cadeia, mas a família e os amigos também.

“Isso muda consideravelmente a vida de todo mundo ao redor, principalmente para nós que ainda temos a cultura de levar comida, fármacos e até água. Todos ficam afectados por causa duma pessoa que está em conflito com a lei”, entende a convidada.

Sobre o programa “Política no Feminino”, manifestou que fica muito feliz quando volta e meia recebem colegas para endossar o painel, continuando que gostaria que todas as mulheres que tivessem coragem e oportunidade de lá estar que o fizessem, porque pensa que “durante muito tempo não conseguimos ver a mulher angolana, a todos os níveis, no mesmo lugar que os homens”.

Assim, insistiu, qualquer mulher que vive cá, que conhece bem os nossos reais problemas, está em condições de estar ali. A condição para isso não é ter um diploma ou licenciatura, é entender a vida do país, é perceber a questão actual, preocupar-se com os problemas e identificar as causas, clareou, e declarou que o programa dá a possibilidade de proporcionar à mulher o lugar que não lhe foi dado, olhar para ela como um ser pensante e muito capaz de resolver problemas.

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