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Florita Telo: “Não é só em África, qualquer cultura tem aspectos positivos e negativos”

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Andrade Lino

A pesquisadora angolana Florita Telo observou recentemente que qualquer cultura tem aspectos positivos e negativos, alertando para que “não nos iludamos de que é só em África, a pobre ideia que o mundo nos passa”.

Licenciada em Direito pela Universidade Agostinho Neto, a também docente universitária fez essa declaração aquando da apresentação do seu livro “Angola – A trajectória das lutas pela cidadania e a educação em direitos humanos”, na Fundação Arte e Cultura, neste mês, tendo reforçado que problemas, falhas e defeitos existem em qualquer cultura “e ninguém pode nos iludir do contrário”.

A autora esclareceu que, onde existem pessoas, vamos sempre encontrar bons e maus hábitos, e costuma sempre dizer que a questão da ocidentalização  dos direitos humanos e uso interesseiro das práticas culturais “precisam nos levar ainda a reflectir grandemente sobre isso”.

Em rigor, continuou, existem hoje muitas pesquisas de afro-descendentes “que vão fazer esse resgate histórico e dizer que o próprio ocidente bebe do continente africano para desenhar as tais normas sobre dignidade humana e que o Egito foi o berço da civilização”. “Aqui estamos a falar do Egipto negro e não o branco que nos vendem geralmente.  Nós vamos encontrar vários livros que já falam do respeito à dignidade da pessoa independente, de quem ela seja. Há um aspecto nessa relação África-Egipto e  eu acho que nós às vezes somos um pouco inocentes,  demasiado ingénuos para olhar para essa questão”, deplorou Florita Telo, insistindo que África não está desligada do mundo e em todo ele existem pessoas oportunistas e aproveitadoras.

“Não sei por que temos a ingenuidade de que o ocidente vai ser bonzinho connosco e vice-versa. Agora eu quero colocar aqui para nós pensarmos: Que tipo de estratégia nós estamos a gizar a título individual e colectivo para negociar com o ocidente de tu pra tu?”, questionou.

Durante a apresentação da sua obra, prefaciada pelo professor Isaac Paxe, a investigadora disse que precisamos fazer com mais regularidade o exercício de conversar com alguma seriedade sobre coisas que dizem respeito a nós, assuntos que afectam a nossa vida, não só individualmente, mas coletivamente, com o país, e foi essa mentalidade que lhe levou a fazer essa pesquisa sobre a história dos direitos humanos em Angola e a construção da cidadania.

“É um trabalho que foi muito difícil de fazer, por vários motivos. Na altura, 2010-2012, fiz o livro e depois refiz. Nós vivíamos um momento político muito difícil. Já tínhamos terminado a guerra, mas em termos do reconhecimento de direito e de exercício da cidadania ainda tínhamos muitos desafios. Falo no passado como se não tivéssemos hoje, mas ainda temos muitos desafios e então surgiu de uma necessidade pessoal”, revelou, partilhando que, apesar de ser admirada pela sua “coragem” e “brilhantismo”, vê-se como qualquer outra pessoa que viu uma situação, que se revoltou e decidiu fazer alguma coisa.

Continuou então que pegou a questão do conhecimento para combater aquilo que viu que estava errado, que era e continua a ser errado,  tendo alguma sensibilidade para as questões sociais. “Na verdade, muitas vezes eu brinco que não venho de uma família necessariamente pobre.  Sou uma pessoa que cresceu na Mutamba, toda minha vida, grandes dificuldades de água e energia não tivemos, a minha mãe era vendedora,  sempre tive tudo que queria, então a partir daí eu poderia dizer que não sou privilegiada, e objectivamente falando poderia dizer que esse assunto não me diz respeito. Iria fazer a minha formação, seria mais uma advogada da vida, porque eu sou formada em Direito, e a vida seguia. Mas eu não conseguia fazer isso. Eu olhava à minha volta, olhava para os meus parentes, olhava para as pessoas na rua e não podia simplesmente fingir que não é comigo e seguir a vida”, narrou, expressando que “essa ousadia” contra a vontade dos seus pais é uma história que apresenta também no livro.

Isso porque que durante muitos anos em Angola, frisou, falar de direitos humanos fazia a pessoa ser tida como da oposição, alguém que cria guerra. Na altura, 2007/2008, quando começou a pesquisa, lembra-se de o seu pai ter lhe perguntado se sabia o que aconteceu no 27 de Maio, aconselhando-a a “deixar disso”, porque isso a levaria à morte.

“Na questão dos direitos humanos, eu trabalhei muito no interior de Angola, no início da minha trajectória profissional. Era a mesma coisa ou até pior, porque as pessoas tinham muito medo, pois quem falava de direitos humanos era como se estivesse a comprar briga com o Governo. Foi um processo muito longo até nós chegarmos aqui nesse espaço a conversar sobre direitos humanos”, contou.

Florita Telo recordou então que quando se cria a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada pela Organização das Nações Unidas, “foi exatamente porque lá na Alemanha o Hitler fez uma lei que dizia que algumas pessoas não eram tão pessoas quanto outras. Aconteceram muitas atrocidades contra centenas de famílias judias e não só, pessoas com deficiência, homossexuais foram mortos nesse processo, porque uma lei disse que estas pessoas não são seres humanos”.

No seu entender, a lei por si só retirou a dignidade destas pessoas e justificou as atrocidades que foram cometidas. “É a mesma dinâmica do processo escravista colonial”, que disse que as pessoas com mais melanina (como prefere referir, para lembrar que a cor da pele é biológica e não social) não são pessoas, são como animais,  podem ser escravizadas. “Na verdade, elas são parcialmente pessoas, porque se baptizadas e domesticadas elas podem se tornar pessoas, mas correndo o risco de perderem essa categoria se entenderem voltar ao que eram. Então o meu livro traz essa questão de forma muito cuidada, aqui a tratar de uma dimensão do direito, pois é a lei que não estava de acordo com a justiça dos direitos humanos”, precisou.

Nesse diapasão, afirmou que as leis existem para encher barrigas. Mas sem direitos humanos, realçou, não há barriga cheia e “é a partir deles que nós temos o direito à alimentação, por exemplo, que é mais material, mas também à educação”.

“Esse uso interesseiro da cultura para justificar a violação dos direitos humanos eu também abordo no meu livro”, concluiu a autora.

*Com Rodeth Dos Anjos

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Andrade Lino

Jornalista

Estudante de Língua Portuguesa e Comunicação, amante de artes visuais, música e poesia.

A pesquisadora angolana Florita Telo observou recentemente que qualquer cultura tem aspectos positivos e negativos, alertando para que “não nos iludamos de que é só em África, a pobre ideia que o mundo nos passa”.

Licenciada em Direito pela Universidade Agostinho Neto, a também docente universitária fez essa declaração aquando da apresentação do seu livro “Angola – A trajectória das lutas pela cidadania e a educação em direitos humanos”, na Fundação Arte e Cultura, neste mês, tendo reforçado que problemas, falhas e defeitos existem em qualquer cultura “e ninguém pode nos iludir do contrário”.

A autora esclareceu que, onde existem pessoas, vamos sempre encontrar bons e maus hábitos, e costuma sempre dizer que a questão da ocidentalização  dos direitos humanos e uso interesseiro das práticas culturais “precisam nos levar ainda a reflectir grandemente sobre isso”.

Em rigor, continuou, existem hoje muitas pesquisas de afro-descendentes “que vão fazer esse resgate histórico e dizer que o próprio ocidente bebe do continente africano para desenhar as tais normas sobre dignidade humana e que o Egito foi o berço da civilização”. “Aqui estamos a falar do Egipto negro e não o branco que nos vendem geralmente.  Nós vamos encontrar vários livros que já falam do respeito à dignidade da pessoa independente, de quem ela seja. Há um aspecto nessa relação África-Egipto e  eu acho que nós às vezes somos um pouco inocentes,  demasiado ingénuos para olhar para essa questão”, deplorou Florita Telo, insistindo que África não está desligada do mundo e em todo ele existem pessoas oportunistas e aproveitadoras.

“Não sei por que temos a ingenuidade de que o ocidente vai ser bonzinho connosco e vice-versa. Agora eu quero colocar aqui para nós pensarmos: Que tipo de estratégia nós estamos a gizar a título individual e colectivo para negociar com o ocidente de tu pra tu?”, questionou.

Durante a apresentação da sua obra, prefaciada pelo professor Isaac Paxe, a investigadora disse que precisamos fazer com mais regularidade o exercício de conversar com alguma seriedade sobre coisas que dizem respeito a nós, assuntos que afectam a nossa vida, não só individualmente, mas coletivamente, com o país, e foi essa mentalidade que lhe levou a fazer essa pesquisa sobre a história dos direitos humanos em Angola e a construção da cidadania.

“É um trabalho que foi muito difícil de fazer, por vários motivos. Na altura, 2010-2012, fiz o livro e depois refiz. Nós vivíamos um momento político muito difícil. Já tínhamos terminado a guerra, mas em termos do reconhecimento de direito e de exercício da cidadania ainda tínhamos muitos desafios. Falo no passado como se não tivéssemos hoje, mas ainda temos muitos desafios e então surgiu de uma necessidade pessoal”, revelou, partilhando que, apesar de ser admirada pela sua “coragem” e “brilhantismo”, vê-se como qualquer outra pessoa que viu uma situação, que se revoltou e decidiu fazer alguma coisa.

Continuou então que pegou a questão do conhecimento para combater aquilo que viu que estava errado, que era e continua a ser errado,  tendo alguma sensibilidade para as questões sociais. “Na verdade, muitas vezes eu brinco que não venho de uma família necessariamente pobre.  Sou uma pessoa que cresceu na Mutamba, toda minha vida, grandes dificuldades de água e energia não tivemos, a minha mãe era vendedora,  sempre tive tudo que queria, então a partir daí eu poderia dizer que não sou privilegiada, e objectivamente falando poderia dizer que esse assunto não me diz respeito. Iria fazer a minha formação, seria mais uma advogada da vida, porque eu sou formada em Direito, e a vida seguia. Mas eu não conseguia fazer isso. Eu olhava à minha volta, olhava para os meus parentes, olhava para as pessoas na rua e não podia simplesmente fingir que não é comigo e seguir a vida”, narrou, expressando que “essa ousadia” contra a vontade dos seus pais é uma história que apresenta também no livro.

Isso porque que durante muitos anos em Angola, frisou, falar de direitos humanos fazia a pessoa ser tida como da oposição, alguém que cria guerra. Na altura, 2007/2008, quando começou a pesquisa, lembra-se de o seu pai ter lhe perguntado se sabia o que aconteceu no 27 de Maio, aconselhando-a a “deixar disso”, porque isso a levaria à morte.

“Na questão dos direitos humanos, eu trabalhei muito no interior de Angola, no início da minha trajectória profissional. Era a mesma coisa ou até pior, porque as pessoas tinham muito medo, pois quem falava de direitos humanos era como se estivesse a comprar briga com o Governo. Foi um processo muito longo até nós chegarmos aqui nesse espaço a conversar sobre direitos humanos”, contou.

Florita Telo recordou então que quando se cria a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada pela Organização das Nações Unidas, “foi exatamente porque lá na Alemanha o Hitler fez uma lei que dizia que algumas pessoas não eram tão pessoas quanto outras. Aconteceram muitas atrocidades contra centenas de famílias judias e não só, pessoas com deficiência, homossexuais foram mortos nesse processo, porque uma lei disse que estas pessoas não são seres humanos”.

No seu entender, a lei por si só retirou a dignidade destas pessoas e justificou as atrocidades que foram cometidas. “É a mesma dinâmica do processo escravista colonial”, que disse que as pessoas com mais melanina (como prefere referir, para lembrar que a cor da pele é biológica e não social) não são pessoas, são como animais,  podem ser escravizadas. “Na verdade, elas são parcialmente pessoas, porque se baptizadas e domesticadas elas podem se tornar pessoas, mas correndo o risco de perderem essa categoria se entenderem voltar ao que eram. Então o meu livro traz essa questão de forma muito cuidada, aqui a tratar de uma dimensão do direito, pois é a lei que não estava de acordo com a justiça dos direitos humanos”, precisou.

Nesse diapasão, afirmou que as leis existem para encher barrigas. Mas sem direitos humanos, realçou, não há barriga cheia e “é a partir deles que nós temos o direito à alimentação, por exemplo, que é mais material, mas também à educação”.

“Esse uso interesseiro da cultura para justificar a violação dos direitos humanos eu também abordo no meu livro”, concluiu a autora.

*Com Rodeth Dos Anjos

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