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Maria Helena Miguel

“Ensinar Português não é sinónimo de ensinar gramática”, defende especialista

“Ensinar Português não é sinónimo de ensinar gramática”, defende especialista
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Ontem, 05 Maio, comemorou-se o dia internacional da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP. Por essa razão, o Ongoma News apresenta, em resumo, uma entrevista de Maria Helena Miguel, professora de Língua Portuguesa, concedida ao Jornal de Angola, no dia 30 de Abril deste ano, onde chamou atenção dos professores de Língua Portuguesa para a necessidade de se usar o melhor modelo para o ensino da disciplina. Ela é de opinião que “o professor de língua deve consciencializar- se de que ensinar Português não é sinónimo de ensinar gramática” e que esta concepção de ensino da língua tem de mudar se quisermos ter um ensino produtivo e motivador.

A disciplina de Português é encarada como sendo difícil por parte dos estudantes quanto à sua realização oral como escrita. A esse propósito, Helena Miguel argumenta que, na maioria dos casos, nas escolas, pratica-se um modelo de ensino da língua tradicionalista, cujo foco é a descrição linguística, com uma grande incidência na gramática - aulas de análise morfológica e sintáctica - cuja matéria é reiteradamente dada ao longo dos anos de formação.

“Mesmo quando se trabalham textos, o foco é, invariavelmente, esse, o que torna o ensino, além de monótono e desmotivador, improfícuo. Consequentemente, o desenvolvimento das competências para o uso da língua fica comprometido. Os resultados estão aí, agravados por tantos outros problemas que enfermam o nosso ensino em geral e que não vou referir, porque não teria espaço”, ressaltou.

Por esse facto, com vista a desarreigar essa situação, a professora apresenta caminhos que conduzam a melhorias, os quais passam pela mudança da forma de ensinar a Língua Portuguesa: “Imprimir às aulas uma dinâmica e uma perspectiva metodológica e de conteúdo que contribua não só para motivar os alunos e fazê-los ter o gosto pelo ensino/aprendizagem, saindo do ensino normativo para um ensino reflexivo, mas que, conduza ao desenvolvimento das competências linguísticas e comunicativas dos estudantes. Isto exige que se concretizem programas de formação/superação dos professores para que eles não fiquem agarrados a práticas de ensino historicamente enraizadas”, propôs.

Em acréscimo, a especialista defendeu ainda que “a aprendizagem deve estar focada no uso dinâmico da língua, centralizando o ensino na produção linguística em todas as suas vertentes, e não somente na gramática. Ora, se nos limitarmos ao ensino da gramática, que é apenas uma componente do domínio linguístico, estaremos a coarctar as competências do aluno”, argumentou. 

O uso da língua nas redes sociais

Relativamente à escrita nas redes sociais, a professora argumentou que elas, por serem, habitualmente, espaços informais de comunicação, têm estado a imprimir nas línguas - não apenas no Português, pois o problema é para todas as línguas – um outro nível de uso. Por um lado, a proximidade temporal dos internautas, no momento da interacção, provoca o desejo de que a comunicação escrita se aproxime o mais possível da oralidade; por outro lado, a rapidez da troca de mensagens imprime à escrita e às próprias palavras uma nova estrutura: as palavras são, muitas vezes, reduzidas ou truncadas, há novas palavras que se criam, outras que, dada à pressa, se afastam da grafia oficial. “Este é um processo natural e podemos até dizer, normal”, admitiu.

Entretanto, Maria Helena Miguel disse que alguns estudos sobre a possibilidade de a linguagem das redes sociais exercer influência na escrita convencional dos estudantes foram inconclusivos.

Outrossim, considerou que “se o estudante tiver segurança e a sua aprendizagem da língua for consistente, ele não ‘misturará’ as variedades linguísticas, aliás, um aspecto que nessa comunicação virtual se destaca é que a linguagem descontraída e com ‘erros’ ocorre quando o interlocutor com quem o internauta comunica tem o mesmo estatuto que o produtor das mensagens”.

A professora referiu que, “comunicando com um interlocutor com um estatuto distinto do seu, o internauta é mais cuidadoso e recorre a um nível de língua mais formal”. Nesta óptica, continuou, “fica evidente que, habitualmente, as pessoas conseguem fazer a distinção dos usos mais ou menos formais, adequados à situação comunicativa, mesmo na comunicação virtual. O papel da escola é ensinar a língua padrão, mas é preciso que reconheça a importância das demais variedades. O estudante deverá ser consciencializado de que todas as variantes da língua são socialmente válidas (todos usamos registos diferenciados da língua, adequados ao contexto, isso é incontestável). Portanto, deve ficar claro que, na escola ou noutro qualquer ambiente formal, não é permitido o emprego da mesma linguagem que usa nas redes sociais, ou a que usa quando se interage com os amigos”, rematou. 

Novo Acordo Ortográfico

Sobre o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, ainda não ractificado por Angola, Maria Helena Miguel afirma que as razões que levaram o país a não ratificar o o documento são de peso e têm a ver não só com algumas inconsistências que o AO apresenta (palavras com dupla grafia, a dificuldade da hifenização…), mas foi, sobretudo, o problema na elaboração do VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o qual deveria integrar o vocabulário de todos os países da CPLP. “Na realidade, isso não aconteceu. Esta foi uma exigência de Angola”, lembrou.

“É uma reivindicação absolutamente legítima que, a meu ver, também já deveria estar resolvida. Falámos disto e colaborei no levantamento de vocábulos, eu e uma equipa de estudantes da UCAN, há uns quatro anos. Estamos a conviver com duas normas ortográficas - nos computadores, nos livros mais recentes, na comunicação social de Portugal e do Brasil - e isto tem deixado muita gente confusa. Muitas vezes, hesitamos em penalizar a escrita dos estudantes que já reflecte a nova grafia. A língua contagia”, ressaltou.

Por fim, a professora fez uma avaliação geral em torno do uso do Português por parte da massa juvenil angolana, dizendo que a juventude, em qualquer país, se caracteriza pelo desejo de se demarcar e fazer a diferença em relação à geração mais velha e isso também se reflecte na língua.

“Os jovens angolanos não são excepção. O uso que fazem da língua, além de evidenciar essa tendência natural, está fortemente marcado pelas condições da aprendizagem do Português: muitos jovens não tiveram oportunidade de aprender correctamente a norma padrão da língua. Bastantes deles chegam à Universidade sem esse domínio. Acontece, com frequência, nas aulas, apresentarmos a forma padrão de um determinado uso linguístico e estudantes afirmarem que, se falassem assim no bairro, os amigos se ririam deles…”, afirmou.

De acordo com as fontes do ONgoma News, O dia 5 de Maio foi fixado como a data em que é anualmente comemorada a “Língua Portuguesa e a Cultura da CPLP”, uma decisão saída do XIV Conselho de Ministros da CPLP, realizado em Junho de 2009, em Cabo Verde. Nesta data, os ministros dos Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores recomendaram aos Estados-membros, às instituições da CPLP, aos Observadores Associados e Consultivos e às diásporas dos países da CPLP a comemoração do Dia da Língua Portuguesa, tendo em vista a sua afirmação crescente nos Estados membros e na Comunidade Internacional.  

Perfil

Maria Helena Miguel começou a leccionar com os seus dezoito anos. Para além de professora de Português e vice-reitora para a Área Académica naUniversidade Católica de Angola, é também investigadora e tem várias obras publicadas, dentre as quais “Convergências”, Manual de Língua Portuguesa para o Ensino Universitário, “Língua Portuguesa - Outros Horizontes”, “Português - Funcionamento da Língua, “Saber +”, e "Língua Portuguesa Tira-Dúvidas de A a Z”.

A docente apaixonou-se pela Língua Portuguesa depois da Independência de Angola, numa altura em que esteve sucessivamente integrada em programas de formação de professores: primeiro na formação chamada “acelerada”, depois em institutos médios normais e, finalmente, no ISCED, após o término da licenciatura.

“ Fui incluída num grupo de professores de Português. Fiz o seminário como formadora de Português e começou, assim, a minha carreira. Ganhei-lhe o gosto…”, frisou.

 

 

 

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Venâncio Chambumba

Ontem, 05 Maio, comemorou-se o dia internacional da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP. Por essa razão, o Ongoma News apresenta, em resumo, uma entrevista de Maria Helena Miguel, professora de Língua Portuguesa, concedida ao Jornal de Angola, no dia 30 de Abril deste ano, onde chamou atenção dos professores de Língua Portuguesa para a necessidade de se usar o melhor modelo para o ensino da disciplina. Ela é de opinião que “o professor de língua deve consciencializar- se de que ensinar Português não é sinónimo de ensinar gramática” e que esta concepção de ensino da língua tem de mudar se quisermos ter um ensino produtivo e motivador.

A disciplina de Português é encarada como sendo difícil por parte dos estudantes quanto à sua realização oral como escrita. A esse propósito, Helena Miguel argumenta que, na maioria dos casos, nas escolas, pratica-se um modelo de ensino da língua tradicionalista, cujo foco é a descrição linguística, com uma grande incidência na gramática - aulas de análise morfológica e sintáctica - cuja matéria é reiteradamente dada ao longo dos anos de formação.

“Mesmo quando se trabalham textos, o foco é, invariavelmente, esse, o que torna o ensino, além de monótono e desmotivador, improfícuo. Consequentemente, o desenvolvimento das competências para o uso da língua fica comprometido. Os resultados estão aí, agravados por tantos outros problemas que enfermam o nosso ensino em geral e que não vou referir, porque não teria espaço”, ressaltou.

Por esse facto, com vista a desarreigar essa situação, a professora apresenta caminhos que conduzam a melhorias, os quais passam pela mudança da forma de ensinar a Língua Portuguesa: “Imprimir às aulas uma dinâmica e uma perspectiva metodológica e de conteúdo que contribua não só para motivar os alunos e fazê-los ter o gosto pelo ensino/aprendizagem, saindo do ensino normativo para um ensino reflexivo, mas que, conduza ao desenvolvimento das competências linguísticas e comunicativas dos estudantes. Isto exige que se concretizem programas de formação/superação dos professores para que eles não fiquem agarrados a práticas de ensino historicamente enraizadas”, propôs.

Em acréscimo, a especialista defendeu ainda que “a aprendizagem deve estar focada no uso dinâmico da língua, centralizando o ensino na produção linguística em todas as suas vertentes, e não somente na gramática. Ora, se nos limitarmos ao ensino da gramática, que é apenas uma componente do domínio linguístico, estaremos a coarctar as competências do aluno”, argumentou. 

O uso da língua nas redes sociais

Relativamente à escrita nas redes sociais, a professora argumentou que elas, por serem, habitualmente, espaços informais de comunicação, têm estado a imprimir nas línguas - não apenas no Português, pois o problema é para todas as línguas – um outro nível de uso. Por um lado, a proximidade temporal dos internautas, no momento da interacção, provoca o desejo de que a comunicação escrita se aproxime o mais possível da oralidade; por outro lado, a rapidez da troca de mensagens imprime à escrita e às próprias palavras uma nova estrutura: as palavras são, muitas vezes, reduzidas ou truncadas, há novas palavras que se criam, outras que, dada à pressa, se afastam da grafia oficial. “Este é um processo natural e podemos até dizer, normal”, admitiu.

Entretanto, Maria Helena Miguel disse que alguns estudos sobre a possibilidade de a linguagem das redes sociais exercer influência na escrita convencional dos estudantes foram inconclusivos.

Outrossim, considerou que “se o estudante tiver segurança e a sua aprendizagem da língua for consistente, ele não ‘misturará’ as variedades linguísticas, aliás, um aspecto que nessa comunicação virtual se destaca é que a linguagem descontraída e com ‘erros’ ocorre quando o interlocutor com quem o internauta comunica tem o mesmo estatuto que o produtor das mensagens”.

A professora referiu que, “comunicando com um interlocutor com um estatuto distinto do seu, o internauta é mais cuidadoso e recorre a um nível de língua mais formal”. Nesta óptica, continuou, “fica evidente que, habitualmente, as pessoas conseguem fazer a distinção dos usos mais ou menos formais, adequados à situação comunicativa, mesmo na comunicação virtual. O papel da escola é ensinar a língua padrão, mas é preciso que reconheça a importância das demais variedades. O estudante deverá ser consciencializado de que todas as variantes da língua são socialmente válidas (todos usamos registos diferenciados da língua, adequados ao contexto, isso é incontestável). Portanto, deve ficar claro que, na escola ou noutro qualquer ambiente formal, não é permitido o emprego da mesma linguagem que usa nas redes sociais, ou a que usa quando se interage com os amigos”, rematou. 

Novo Acordo Ortográfico

Sobre o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, ainda não ractificado por Angola, Maria Helena Miguel afirma que as razões que levaram o país a não ratificar o o documento são de peso e têm a ver não só com algumas inconsistências que o AO apresenta (palavras com dupla grafia, a dificuldade da hifenização…), mas foi, sobretudo, o problema na elaboração do VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o qual deveria integrar o vocabulário de todos os países da CPLP. “Na realidade, isso não aconteceu. Esta foi uma exigência de Angola”, lembrou.

“É uma reivindicação absolutamente legítima que, a meu ver, também já deveria estar resolvida. Falámos disto e colaborei no levantamento de vocábulos, eu e uma equipa de estudantes da UCAN, há uns quatro anos. Estamos a conviver com duas normas ortográficas - nos computadores, nos livros mais recentes, na comunicação social de Portugal e do Brasil - e isto tem deixado muita gente confusa. Muitas vezes, hesitamos em penalizar a escrita dos estudantes que já reflecte a nova grafia. A língua contagia”, ressaltou.

Por fim, a professora fez uma avaliação geral em torno do uso do Português por parte da massa juvenil angolana, dizendo que a juventude, em qualquer país, se caracteriza pelo desejo de se demarcar e fazer a diferença em relação à geração mais velha e isso também se reflecte na língua.

“Os jovens angolanos não são excepção. O uso que fazem da língua, além de evidenciar essa tendência natural, está fortemente marcado pelas condições da aprendizagem do Português: muitos jovens não tiveram oportunidade de aprender correctamente a norma padrão da língua. Bastantes deles chegam à Universidade sem esse domínio. Acontece, com frequência, nas aulas, apresentarmos a forma padrão de um determinado uso linguístico e estudantes afirmarem que, se falassem assim no bairro, os amigos se ririam deles…”, afirmou.

De acordo com as fontes do ONgoma News, O dia 5 de Maio foi fixado como a data em que é anualmente comemorada a “Língua Portuguesa e a Cultura da CPLP”, uma decisão saída do XIV Conselho de Ministros da CPLP, realizado em Junho de 2009, em Cabo Verde. Nesta data, os ministros dos Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores recomendaram aos Estados-membros, às instituições da CPLP, aos Observadores Associados e Consultivos e às diásporas dos países da CPLP a comemoração do Dia da Língua Portuguesa, tendo em vista a sua afirmação crescente nos Estados membros e na Comunidade Internacional.  

Perfil

Maria Helena Miguel começou a leccionar com os seus dezoito anos. Para além de professora de Português e vice-reitora para a Área Académica naUniversidade Católica de Angola, é também investigadora e tem várias obras publicadas, dentre as quais “Convergências”, Manual de Língua Portuguesa para o Ensino Universitário, “Língua Portuguesa - Outros Horizontes”, “Português - Funcionamento da Língua, “Saber +”, e "Língua Portuguesa Tira-Dúvidas de A a Z”.

A docente apaixonou-se pela Língua Portuguesa depois da Independência de Angola, numa altura em que esteve sucessivamente integrada em programas de formação de professores: primeiro na formação chamada “acelerada”, depois em institutos médios normais e, finalmente, no ISCED, após o término da licenciatura.

“ Fui incluída num grupo de professores de Português. Fiz o seminário como formadora de Português e começou, assim, a minha carreira. Ganhei-lhe o gosto…”, frisou.

 

 

 

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